segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Revelado o nome do principal torturador de Stuart Angel Jones


Finalmente se conhece o nome do principal torturador de Stuart Angel Jones, militante do MR-8 assassinado em 1971 nos porões da tortura do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica (CISA). Stuart era filho da estilista Zuzu Angel, morta num acidente que a justiça do Rio já provou ter sido provocado.

Ele morreu com a boca amarrada ao cano de escapamento de um jeep que o arrastou por longo tempo no pátio do quartel. O principal torturador de Stuart – a mulher dele, Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones, também foi assassinada pela ditadura – era chamado de “Abílio Alcântara” (codinome “Pascoal”) pelos presos políticos que passaram pelos porões do CISA, que funcionava junto à Base Aérea do Galeão.

“Abílio Alcântara”, porém, nunca existiu. Serviu apenas para esconder a verdadeira identidade do sargento Abílio Correa de Souza. Após o cruzamento de depoimentos de ex-presos com informações em bancos de dados nacionais e internacionais, o jornal O Globo chegou ao verdadeiro nome sob o qual se escondia o agente.

Torturador cursou escola de tortura e anticomunismo no Panamá

Souza chegou a fazer cursos de inteligência de combate e contraespionagem na conhecida Escola das Américas, no Forte Gulick, no Panamá, em 1968, onde os americanos ensinavam táticas de tortura a militares do continente, aos quais também doutrinavam para serem anticomunistas, deflagrarem, aceitarem e colaborarem com golpes de Estado e militares no auge da Guerra Fria.

De acordo com o relato dos presos, ele seria o braço-direito do coronel Ferdinando Muniz de Farias, o “dr .Luis” — homem de confiança do brigadeiro Carlos Affonso Dellamora, comandante do CISA. Ambos já amplamente denunciados pelo ex-preso político Alex Polari de Alvarenga.

Já há 42 anos, à medida que pode e da forma como lhe é possível, Polari denuncia que presenciou o momento em que o amigo Stuart foi preso por agentes da Aeronáutica, na manhã de 14 de junho de 1971, em uma região do Grajaú, na Zona Norte do Rio. Entre eles, o sargento Abílio Correa de Souza, o “Abílio Alcântara”, de codinome também “Pascoal”.

Jornal traz revelação de nova testemunha

Agora surge uma nova testemunha dos momentos finais da vida de Stuart, a ex-presa política Maria Cristina de Oliveira Ferreira. De acordo com ela, Souza foi o último agente a falar com o filho da estilista Zuzu Angel, em sua agonia. Maria Cristina conta que não chegou a ver, mas ouviu os gemidos do dirigente do MR-8 ao longo da madrugada. Stuart murmurava seguidamente “vou morrer, vou morrer”.

Em determinado momento, conta Maria Cristina, o sargento Souza “Pascoal” se aproximou dele e falou: “ ‘Deixa de frescura, Paulo (codinome de Stuart no MR-8). Você não vai morrer ainda não. Toma aqui um melhoral’. Pouco depois ele silenciou e eu ouvi o barulho semelhante à retirada de um corpo”.

Maria Cristina nunca fora ouvida antes sobre o assunto por ser acusada por ex-companheiros de militância de colaboração com o regime. “Depois do que aconteceu com Stuart, a carceragem foi imediatamente esvaziada. Todos nós fomos transferidos para outros lugares”, recorda-se.

Torturador falou de prisão sorrindo

Outro preso também confirma a liberdade com que Souza transitava pelos corredores da carceragem. Manoel Henrique Ferreira contou em relatório que integra o acervo do Brasil Nunca Mais que “Pascoal” pediu-lhe que reconhecesse a foto na carteira de identidade falsa com que Stuart foi preso. Em seguida, confirmou a prisão, sorrindo.

O Globo do domingo também traz nomes de outros torturadores no local. Mas não informa se Souza, o principal torturador de Stuart, está vivo ou morto. Estão aí, portanto, os nomes dos principais torturadores e assassinos de Stuart. Com testemunhas e provas.

E não só os deles, mas também de seus chefes, até à chefia do CISA. Daqueles que, da cadeia de comando, ordenaram a prisão e tortura de Stuart. Todos impunes. Sem nem sequer assumirem seus crimes ou informarem o que fizeram com Stuart. A lei, a Constituição aceitam semelhante crime impune? A Justiça e o Congresso Nacional se manterão em silêncio cúmplice? Até quando?