quinta-feira, 19 de setembro de 2013

O dia em que fiz café para Allende - Por Ribamar Bessa Freire

Eu estava lá, em janeiro de 1970, lá na avenida Bulnes, em Santiago de Chile, no meio da multidão, no comício da Unidad Popular, quando o senador Salvador Allende, do Partido Socialista, foi proclamado o candidato das esquerdas. No palanque, ao fundo, gigantesco painel branco sobre o qual uns trinta artistas plásticos desenharam ali, na hora, coletivamente, um mural colorido. Apenas dois oradores: Pablo Neruda, do Partido Comunista, em breve discurso, renunciou sua pré-candidatura. Em seguida, Allende falou já como candidato. O resto foi festa.

Com alguns brasileiros exilados, entre eles o titiriteiro Euclides Souza, o Dadá, que hoje mora em Curitiba e o jornalista Tarcisio Lage, que virou holandês, eu estava lá, eu e os meus 22 anos. Entoamos com a multidão: Se siente, se siente, Allende presidente! Ouvimos as palavras de ordem: Jota, Jota, Ce Ce: Juventudes Comunistas de Chile! Crianças cantavam em jogral: Pica el ajo, pica el ají, sale Allende, claro que sí! Cantores e grupos musicais alegravam a festa: Isabel e Ángel Parra, Victor Jara, Quilapayún, Intillimani e outros menos conhecidos.

A avenida Bulnes fervilhava da Alameda até o Parque Almagro, com gente pendurada nos galhos das árvores para ter uma visão melhor do palanque. Bandeiras, cartazes, faixas. As pessoas, em pequenas rodas, bailavam cuecae refalosa, rodopiando com um lenço na mão direita. Cantavam e festejavam o sonho de construir uma pátria sem injustiça, sem miséria, sem exploração. Os chilenos estavam enamorados da vida. Nutriam esperanças. Transbordavam alegria. Santiago era uma festa. Nós, exilados brasileiros, estávamos ébrios de civismo (e do bom vinho chileno).

El cafecito

A campanha eleitoral durou uns oito meses. Acompanhei parte dela de um lugar privilegiado, ao lado do poeta Thiago de Mello, que até o golpe militar de 1964 havia sido adido cultural do Brasil no Chile, quando fez amizade com intelectuais e artistas chilenos, entre eles Neruda, Violeta Parra, Allende, o pintor Nemesio Antúnez – diretor do Museu Nacional de Belas Artes, Isidora Aguirre – dramaturga e autora de La Pérgola de las flores, a atriz Inés Moreno e tantos outros intelectuais. Foi lá, no Chile, que foi parido o Estatuto do Homem.

Os chilenos, solidários, acolheram Thiago com carinho. Isabel, uma das filhas de Allende – hoje senadora por Atacama – viajou de férias para Valparaíso e cedeu seu apartamento em uma torre no bairro La Providencia, em Santiago, para Thiago e Lurdinha que me haviam perfilhado. Com eles morei dois meses naquele verão. Num domingo à tarde, talvez já em fevereiro, toca a campainha. Abro a porta e tomo um susto: diante de mim, em carne e osso, Salvador Allende, acompanhado de Inés Moreno.

Eu, ali, em pé, diante dos dois, na soleira da porta. Allende – “El pije” – porte elegante, vestia sua tradicional guayabera branca de linho, manga comprida, com discreto bordado nos quatro bolsos. Inés Moreno, atriz e poeta, já era minha conhecida, pois residia no mesmo prédio, em outro andar, e frequentava os saraus da casa de Thiago. Era uma bela mulher, magra e espigada, aparentando uns quarenta e poucos anos. Vinham visitar Thiago. Informei que o poeta tinha ido passar o fim de semana em Viña del Mar. Eu estava sozinho. E de tão espantado, nem sabia como agir.

Foi quando Allende, com humor, perguntou se podia entrar na casa de sua filha. Ele estava em plena campanha e havia decidido tirar uma folga naquela tarde. Entraram. Conversamos sobre política, Chile, Brasil, literatura, música – ele conhecia bossa-nova e gostava de João Gilberto – e amenidades. Allende brincou:

- No hay café en casa de brasileño?

Com o maior prazer, passei, então, um café, al tirito, nomás, como minha mãe ensinou: jogando o pó dentro da água fervendo para depois coar num filtro de papel na falta do coador de pano. Tomamos café os três, eu ali, de quase penetra, pegando uma carona naquele momento singular, olhos bem abertos, apreendendo tudo e dando gracias a la vida por me haver dado tanto.

Chirimoya alegre

Inés recitou algo tocando violão, talvez um poema retirado do seu livro Mi mano en tu mano, do qual agora não lembro mais. Eu já conhecia seu talento de declamadora, sua voz aveludada. Na primeira vez em que a ouvi, num jantar oferecido por Thiago, ambos recitaram juntos, alternando vozes, o Romancero Gitano de Garcia Lorca. Naquela sala, coube toda a Andaluzia. Irromperam os dois rios de Granada que “bajan de la nieve al trigo”, o Guadalquivir “con sus barbas granates”, as meninas mirando a lua, os gitanos, a guarda civil, os carabineiros com “sus negras capas ceñidas” e até o cadáver de Antoñito el Camborio.

“Ay, amor, que se fue por el aire!” A tarde acabou, despedimo-nos de Inés que subiu para seu apartamento. Num gesto inesperado, Allende retribuiu o café me convidando a tomar um sorvete. Ele próprio foi dirigindo o carro, comigo no banco do carona, até uma sorveteria da moda, no sopé da Cordilheira dos Andes, em Las Condes. Dentro de alguns meses, seria o presidente da República. Estava ali, sem qualquer segurança, nem mesmo um motorista.

Ocupamos uma mesa. Saboreamos sorvete de ‘chirimoya alegre’, o que me permitiu matar as saudades do Amazonas. A chirimoya é irmã do nosso biribá e prima da graviola. Fica alegre quando sua polpa é misturada com suco de laranja, um pouco de passas e nozes. As pessoas vinham até a mesa abraçar Allende, embora Las Condes e o vizinho Vitacura fossem bairros de ricos, sede de embaixadas com luxuosas mansões. Aos que conheciam o poeta, ele me apresentava: “Un brasileño, amigo de Thiago”.

Eu estava ali como Pilatos no Credo, mas consciente de estar vivendo aquele momento ao lado de um homem bom, límpido, decente, de tanta importância para a história dos povos humildes de nossa América. No início de setembro, Allende era eleito e dois meses depois assumia a presidência.

Si vas para Chile

Dizem que o moribundo, na hora da verdade, recorda momentos vitais de sua existência. Suspeito que quando chegar minha vez, cenas que vivi no Chile ocuparão boa parte do filme. Minha passagem por lá durou menos de um ano, mas foi um momento histórico muito intenso. Era o início de 1970. Milhares de exilados brasileiros foram recebidos fraternalmente pelos chilenos, que compartilharam conosco casa, pão, vinho, música, poesia, alegria, sonhos. Como foram generosos esses chilenos! Dormi em casas de desconhecidos, que me acolheram como um familiar.

Quando finalmente deixei o Chile, na despedida, Inés Moreno rasgou no meio um bilhete de 1 (um) escudo chileno, que tinha no centro a figura de Arturo Prat, um herói naval do século XIX. Ela ficou com a parte de Arturo e me deu a outra metade. Se alguém chegasse com o Prat na mão, ela saberia a origem. Era mais um gesto de solidariedade, de proteção, de duvidoso efeito prático. Passei pelo Chile em meados dos anos 90 quando Thiago lá estava de volta como adido cultural. Jantamos com Inés que não tinha mais o Arturo, nem eu o Prat.

Tudo isso lembrei agora nesta semana, ao acompanhar com o coração na mão a cobertura da mídia brasileira e internacional sobre a rememoração dos 40 anos do golpe militar, quando Allende foi homenageado como merece. Li o artigo La sombra de Inés Moreno escrito pelo jornalista Luis Alberto Mansilla na revista Punto Final, noticiando sua morte em março de 2003:

- Nos últimos dias já não podia falar. Comunicava-se escrevendo em pedaços de papel que entregava às suas filhas. Um deles era uma citação de Borges, que expressava suas últimas percepções: “toda pessoa que viveu projeta uma sombra que nunca acaba”.

Deixo aqui, no Diário do Amazonas, a sombra de Salvador Allende e de Inés Moreno, com cheiro de café e sabor de chirimoya. “Si vas para Chile, te ruego viajero, que digas a ella, que de amor mi muero”.