domingo, 22 de setembro de 2013

'Cantadas' na rua ampliam debate sobre assédio sexual e direitos da mulher

marcha vadias porto alegre
Movimento feminista questiona cultura do assédio.
O ponto de partida para o debate sobre os direitos da mulher e o machismo nunca aparentou ser tão inofensivo. As chamadas “cantadas”, ou 'elogios', levantaram discussão na semana passada sobre o que é ou não adequado de se dizer a mulheres desconhecidas no espaço público, e assim, sobre os direitos dessas mulheres de circularem livremente.

Movimentos feministas e especialistas na questão do gênero qualificam as cantadas como um tipo de violência contra a mulher, ao mesmo tempo que são rebatidos por setores que alertam para o perigo da criação de uma espécie de cartilha feminista, que passaria a reger novas formas, mais duras, de relações sociais.

Uma pesquisa online feita pela jornalista Karin Hueck revelou que 99,6% das 7.762 mulheres que participaram do questionário já sofreram algum tipo de assédio sexual ou verbal enquanto estavam na rua, no transporte público, no trabalho e na balada.

“Linda”, “Gostosa” e “Delícia” são algumas das exclamações mais listadas pelas participantes. Destas, 83% diz não considerar as cantadas como algo positivo, e 90% declarou já ter trocado de roupa com medo do assédio que poderia sofrer ao sair de casa.

“Essas cantadas configuram assédio moral e sexual, na medida em que há um constrangimento das mulheres que, ao andarem nas ruas, têm de ouvir o que não querem. A questão que tem de ser feita é se ela quer passar por este constrangimento. É uma violência achar normal assobiar e dizer 'gostosa', sem considerar a vontade e o desejo dela”, afirma a secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres da Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo federal, Aparecida Gonçalves.

Ela lembra que o direito de ir e vir, garantido constitucionalmente, é ferido a partir do momento em que as mulheres sentem medo ao circular por espaços públicos.

“Se não houvesse medo, se a mulher não se sentisse envergonhada e constrangida ao passar por estas situações, não haveria problema nenhum. Mas estas cantadas são elementos que fazem parte de uma cultura machista, de achar que pode assobiar quando vê uma mulher gostosa, de colocar a mulher como objeto passivo de desejo do homem.”
Generalização

Segundo a autora da pesquisa, Karin Hueck, as cantadas são algo pela qual toda mulher passa de forma recorrente. Apesar da prática generalizada, esse é um tema pouco abordado quando se discutem questões de gênero, por ser visto como natural.

“Acho que a pesquisa pegou bem num ponto de uma ferida exposta há muito tempo, e que ninguém estava querendo tratar”, afirma a jornalista.

Ela defende que a naturalização do assédio é relacionada ao fato de o corpo da mulher, assim como a rua, a praça, e o parque, ser visto como algo público.

“As cantadas partem do pressuposto que o corpo da mulher é público, em oposição ao intimo. Mas o fato de a mulher andar no espaço público não torna o corpo dela, a roupa dela públicos. Ninguém tem o direito de invadir a intimidade dela só porque ela está andando no espaço público, com a roupa que quiser.”

Para a professora de Antropologia da USP e especialista em gênero, Heloísa Buarque de Almeida, a prática das cantadas revela em como os direitos das mulheres no Brasil sempre foram restritos em relação aos dos homens.

“É uma explicação muito histórica para se pensar no Brasil. Principalmente as mulheres de classe alta não ocupavam a rua. Até os anos 50, a mulher não podia sair sozinha de casa. Mas a mulher de classe popular sempre estava na rua porque elas tinham que trabalhar. Chamar a mulher de pública era chamar de puta”, explica.
Elogio X Assédio

A reciprocidade e o interesse mútuo são colocados pela professora da USP como o grande divisor de águas para estabelecer o que é uma manifestação saudável de interesse de uma pessoa por outra.

“A grande diferença é que uma coisa é uma paquera e outra coisa é uma cantada. A paquera pressupõe que a menina está lá também olhando para este homem, que há uma reciprocidade, um interesse mútuo.”

Surgiram nas redes sociais tentativas de esquematizar, com definições, o que é o elogio e o que é o assédio. A professora alerta que esta é uma definição difícil de ser desenhada esquemática e objetivamente, já que as relações interpessoais não são regidas por manuais, mas condicionadas por códigos culturais.

“São códigos culturais que são compartilhados. É difícil você descrever objetivamente, mas as pessoas sabem o que se passa quando vivem a situação. O moço sabe quando a moça está também olhando para ele”, comenta.

A militante da Marcha Mundial das Mulheres, um dos movimentos feministas mais atuantes do país, Thandara Santos, aponta que não é objetivo das entidades que lutam por direitos das mulheres criar esquemas de como relações sociais devem se dar.

“Acho que não cabe à gente este papel, a questão é gerar o debate. A pesquisa retratou a voz de oito mil mulheres. O resultado é significativo porque são milhares de mulheres falando em medo, não em elogio. É importante que esse debate gere o entendimento de que a relação entre homens e mulheres deve estar pautada pelo respeito, pela autonomia, pela liberdade dessas mulheres de andarem na rua da forma como quiserem.”

A acusação do surgimento de uma “patrulha feminista” surgiu como uma forma de reação ao debate, a partir da repercussão da pesquisa. Para Thandara, o debate e a reivindicação por relações mais igualitárias nos espaços públicos é um movimento natural de resposta às violações contra as mulheres.

“Se existe violência é óbvio que vai haver uma patrulha, isso é histórico e é óbvio que vai haver em relação a todas as violências que se cometem contra as mulheres. E este tipo de assédio na rua entendemos como como violência.”
Estereótipos

O índice de 17% das mulheres que relataram receber as cantadas como algo positivo pode ser usado como argumento por aqueles que consideram as cantadas como elogios. Para as militantes feministas, porém, isso pode ser explicado através de um estereótipo de mulher, muito ligado à cultura midiática contemporânea. Além disso, os movimentos apontam uma falta de empoderamento feminino, já que as mulheres também fazem parte da sociedade que sempre teve os homens como modelos de poder.

“As mulheres são muito diferentes, de faixa etárias diferentes, classe social, cor. No Brasil, se você olhar o que faz a mídia, tem uma promoção de que toda mulher tem de ser bonita e gostosa, ser elegante, bacana, glamourosa e gostar de ser olhada. E para algumas mulheres inclusive isso é uma via de ascensão social. É através do corpo que elas conseguem algumas coisas. É o corpo como capital.”

Apesar disso, a secretaria nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, Aparecida Gonçalves aponta um empoderamento das mulheres na última década. O próprio debate gerado pela pesquisa mostra que as mulheres estão mais atentas para a questão do machismo, e perderam o medo em falar em feminismo.

“As mulheres estão mais presentes no mercado de trabalho, elas estudam mais, e acompanham mais os debates políticos. Elas percebem este medo e sabem que têm o direito de não se sentirem constrangidas, têm o direito de viver sem violência. O importante na pesquisa é que ela foi pioneira em dizer que as mulheres não gostam disso. Elas também têm direitos ao espaço público, e elas estão mais empoderadas.”
Políticas de combate

A educação voltada para a igualdade de gênero e para a diversidade é apontada como a política pública mais eficaz no combate a comportamentos sexistas.

“Os cursos, desde a educação básica, tinham de ter alguns elementos nas próprias disciplinas que discutissem a questão de gênero e de violência contra a mulher. Isso é fundamental para a formação de uma nova mentalidade”.

Para a professora da USP, a escola funciona com um espaço de reprodução das lógicas machistas. “A escola, desde pequenininhos, promove a desigualdade entre meninos e meninas, a maioria das escolas. O principal é você ter uma educação voltada para a ideia da igualdade do gênero”, explica Heloísa.

Em maio deste ano, a Secretaria de Políticas Para as Mulheres, criada em 2003 na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, lançou o Programa Mulher Viver Sem Violência, que prevê a ampliação de serviços públicos de segurança, justiça, saúde e assistência social à mulheres vítimas de violência doméstica.

Segundo Aparecida, a pesquisa e o debate gerado por ela pautaram a Secretaria para uma das próximas campanhas educativas, dentro do programa, para o combate a comportamentos sexistas, incluindo a questão do assédio nas ruas.

“Precisamos no Brasil de uma campanha educativa que altere o comportamento das pessoas. Tem que ser prioridade número um, que os cidadãos respeitem um aos outros independentemente de sexo, raça e orientação sexual. Este é um desafio em âmbito nacional, e de segurança publica, inclusive. Estamos em processo de criação de cinco grandes campanhas, uma delas pode ser pautada por estes resultados [da pesquisa]”, afirma.