domingo, 29 de setembro de 2013

‘Precisamos formar mais doutores na Amazônia’, diz sociólogo

Sociólogo Renan Freitas Pinto, 70 anos: "O Brasil continua sendo marcado por grandes desigualdades"
A aposentadoria do cargo de professor titular da Ufam, função realizada há 40 anos, não vai parar o amazonense Renan Freitas Pinto, que tem diversos projetos de pesquisa, além orientação de mestrandos e doutorandos na instituição
Um dos principais estudiosos da Amazônia, o professor doutor em Sociologia, Renan Freitas Pinto, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), completou 70 anos de vida e 40 de atividade no ensino e pesquisa com o vigor que lhe é peculiar. E nem mesmo a aposentadoria compulsória o faz render essa condição.

Homem de muitas leituras, que consegue ler vários livros ao mesmo tempo, Renan não se prepara para passar tempo ocioso. Aliás quando está ocioso lê, da mesma forma como quando trabalha. Em viagem para a Alemanha, onde foi lançar o livro “Cinco Séculos de relações brasileiras e alemãs”, já tem planos para a volta, com projetos de lançamento de livros e orientações na pós-graduação da Ufam, onde vai continuar atuando.

Crítico da distribuição desigual de verbas para as instituições de ensino superior e da falta de políticas continuadas para difusão das publicações da região, falou da necessidade de formação de doutores para reduzir a distância que a região tem das demais regiões do Brasil e dos desafios para o futuro da Amazônia: 

É possível fazer uma comparação de como era a região quando o senhor começou a trabalhar e como está agora?

Acho que a mudança de paradigma envolve não só o meu trabalho, mas também o trabalho da própria Ufam, pois quando a universidade começou a investir mais firmemente na pós-graduação, começou uma mudança no próprio paradigma. Nós conhecíamos uma Amazônia, com algumas exceções, a partir do que os viajantes estrangeiros escreveram, assim como os próprios brasileiros de outras regiões. A pós-graduação é o que marca definitivamente o inicio de um processo de produção de um conhecimento sobre a Amazônia que é uma espécie de autoconhecimento, ou seja, processo de autoconsciência, que é completamente diferente de nós lermos e até ensinarmos as lições que aprendíamos com os outros. O acervo dos estrangeiros continua, mas a ele estamos acrescendo agora uma produção nossa, não só da Ufam, mas das federais do Pará, Acre, que têm tido papel importante. É um pergunta interessante porque não se pode respondê-la individualmente, mas dentro desse quadro de uma mudança.

E o que mudou com a pesquisa dos amazonenses?

Podemos dizer que a fisionomia desse pensamento e desse conhecimento mudou. Esse no novo paradigma é diferente do anterior, porque nós começamos primeiros a criticar esses autores que vieram antes como Euclides, Capitão Cruz, os viajantes, Casal Agassiz etc.

Todas as áreas contempladas com pesquisas?

Esse é um aspecto muito importante porque as pesquisas não se referem apenas às ciências humanas. Temos a participação do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia ) na tradição da pesquisa botânica, ciências da natureza e tem um forte papel nisso.

Qual é o lugar da Ufam nas pesquisas da Amazônia?

A Ufam contribuiu para reler a Amazônia e reescrevê-la, no sentido de estar produzindo novas interpretações. É melhor tentarmos entender a posição da Amazônia e a importância desse conhecimento em nível nacional. E aí aparentemente, estamos em grande desvantagem porque os grandes investimentos em pesquisa se concentram fortemente nas universidades consolidadas das regiões desenvolvidas, onde estão. Aí nós, num certo sentido, reproduzimos essa desigualdade, somos um retrato fiel dessa desigualdade.

Em que sentido?

Nossos projetos, nossas verbas, linhas de pesquisas, nossas próprias temáticas são determinadas pelas políticas científicas do País, cujo projeto não está bem definido, por exemplo, de desenvolvimento sustentável, sociedade e meio ambiente são temas que estão mais da moda, porque são estimulados pela política nacional.

Como a Ufam tem que se enquadrar nessas temáticas?

Sempre numa posição desvantajosa porque as verbas destinadas à produção científica no Brasil, como mestrado, doutorado e pós-doutorado, para a Amazônia, na sua totalidade, ocupam algo em torno de 2% do total nacional. É claro que conhecimento não se pode traduzir em dinheiro, mas de certo modo isso é importante, sem os meios não se faz pesquisas.

Isso faz muita diferença na questão de quantidade de pesquisas...

O mundo olha para Amazônia e os pesquisadores estrangeiros vêm com os recursos necessários. Apesar de projetos como o da Fapeam (Fundação Amparo de Pesquisas do Amazonas), mudarem um pouco esse cenário, temos uma grande distância entre o que se faz no Brasil, que pesquisa pouco, e dentro desse País estamos nós, fazendo um trabalho importante, dentro das limitações, mas que é duradouro, fixa raízes, produz uma necessidade de se ampliar.

Falta ainda reconhecimento a esse trabalho?

Acho que existe uma produção de reconhecida qualidade teórica. Nos aproximamos, com relativa facilidade, das grandes inovações teóricas que estão acontecendo. Agora mesmo estamos desenvolvendo um projeto na Ufam que é uma aproximação com a teoria crítica. Convidamos vários professores expoentes, representantes brasileiros dessa teoria, que é basicamente sobre a escola de Frankfurt, estudo sobre Marcuse (Herbert) e Adorno (Theodor). Durante todo ano passado, trouxemos vários convidados com vários livros publicados e vamos publicar um livro brevemente sobre Adorno, que é uma reunião desses pesquisadores brasileiros com os nossos do doutorado.

Como conseguir do Governo Federal um novo olhar para a Amazônia?

Segundo estudo da Sociedade Brasileira de Pesquisa, a Amazônia precisa formar 10 mil doutores na próxima década para se igualar às demais regiões. É um problema não do Governo Federal, mas de como o Brasil percebe a Amazônia de modo preconceituoso e de desconhecimento. Se nós, que estamos concentrados em estudos, não conhecemos bem a Amazônia de modo geral, imagina os brasileiros. Mas isso é uma situação difícil de vencer rapidamente, embora já tenha sido muito pior.

O que contribui para isso?

O processo de silenciamento sobre a publicação de livros na região. Temos publicações sobre várias áreas do conhecimento, mas a difusão deles não acontece nacionalmente. A própria Ufam, em colaboração com a Fapeam e Inpa tentaram, mas esses livros não circulam no Brasil, não se fala sobre eles. De dois mil livros publicados por mês no Brasil, apenas 200 entram na mídia em forma resenha, entrevista etc. E outros 1.800? Muitas vezes os melhores estão esses, mas não se fala deles em lugar algum. Teria que ter uma política de circulação do conhecimento, da circulação do conhecimento.

O senhor tentou fazer isso quando dirigiu a Editora da Universidade?

Fizemos muitas tentativas de levar livros para a livraria do aeroporto de São Paulo, para a livraria Cultura, aqui mesmo na Saraiva, mas não fomos bem sucedidos. Provavelmente por conta de certos impedimentos de acertos comerciais por se tratar com a universidade que é um órgão federal, mas que podem ser tratados e superados.

Como o senhor avalia a pós-graduação da Ufam?

A pós da Ufam está em bom nível, mas precisa se conectar mais, estabelecer um intercâmbio e relacionamento com professores de fora do Estado e estrangeiros, pois isso é uma forma de atualizar o conhecimento da universidade. Mas precisa ir mais longe, precisamos nos tornar referência em alguns assuntos. Por exemplo, porque não centramos na formação de pesquisas sobre povos indígenas? Isso até agora não aconteceu, mas precisamos investir pesado nisso. Outro tema importante é a interiorização. O subdesenvolvimento da Amazônia está relacionado com a imensa desigualdade existente entre cidades como Belém, Manaus e o resto. Essas cidades precisam se desenvolver...

E política educacional do País?

O Brasil continua sendo marcado por grandes desigualdades. Tem regiões muito bem situadas, com universidades consolidadas, outras caminho e outras em situação crítica, por isso digo que a Amazônia não é um problema de governo, mas da política brasileira. Os IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) daqui são baixos e uma jornalista da Folha de São Paulo disse que o Norte puxa o Brasil para trás, mas o problema não é nosso, mas do Brasil que mantém desigualdades tão extremas.

Como o senhor vê essa corrida dos jovens para obter um diploma universitário?

Isso era esperado, porque o diploma abre oportunidade de trabalhar, ser reconhecido como profissional. Está comprovado que o curso superior oferece nível maior de oportunidades no mercado, melhores salários Precisamos dar um salto em algumas áreas como Medicina e Direito, onde há pouca procura pela pós-graduação. A cultura da pesquisa está se desenvolvendo agora, por meio da pos-graduação e mudando o paradigma do que é formação, no sentido do proposto por Adorno, formação e semi-formação. O diploma simplesmente é semi-formação, a formação mesmo é algo que não para, continua na pós.

Com a velocidade das transformações na sociedade, que mundo o senhor imagina que seu neto vai ter?

Costumo dizer que o mundo da gerações que se sucedem é mais amplo que do passado, porque os mais novos encontram mais possibilidades que nós, principalmente a minha geração, não do pai dele, que está em processo.

O senhor vai se afastar da Ufam?

Estou em viagem para a Alemanha e quando voltar vou dar aula, tenho orientações de alunos do mestrado e doutorado. Não vou parar.

O senhor é conhecido por ser um leitor voraz...

Tenho uns 300 livros que estou precisando ler, espero ter tempo de vida para ler.

Se tivesse que dar um conselho aos mais jovens, que diria?

Não gosto de conselho, mas posso dar um. Que aprendam o hábito da leitura dos grandes clássicos como Cervantes, Shakespeare, Balzac, Guimarães Rosa, Machado de Assis. Momentos dedicados à leitura são mais profundos e preciosos da vida, porque você lida com o que demais importante a humanidade conseguiu produzir. Quando você passa por essas e outras obras como a de Marx e Adorno, é como se tivesse atravessado um túnel e quando sai dele você é outra pessoa. Por que essas obras têm a capacidade de transformar as pessoas e ninguém consegue escapar desse fascínio.

Perfil:

Nome: Renan Freitas Pinto
Idade: 70
Estudos: Doutor em Sociologia pela PUC/SP
Experiência: Tem experiência na área de Sociologia, com ênfase em Sociologia do Desenvolvimento, atuando principalmente nos seguintes temas: Amazônia, pensamento social, história das idéias, desenvolvimento regional e trabalho feminino.