terça-feira, 15 de outubro de 2013

Por que a CNV não firmou convênios com comissões congêneres do continente?


A Comissão Nacional da Verdade (CNV), que completa amanhã um ano e meio de seu funcionamento, já firmou parcerias com comissões congêneres dos outros países do continente, também vítimas de ditaduras militares nos anos 60 a 80? O que está esperando?

Por que a CNV não pediu e não pede o apoio de suas congêneres nos países vizinhos, Chile, Uruguai, Argentina? Por que os governos e a justiça do Brasil e desses países não têm convênios e ações comuns para descobrir os crimes de suas ditaduras? Por que não levantar num trabalho conjunto tortura, assassinatos, desaparecimento dos corpos dos combatentes assassinados por esses regimes militares com participação direta e pessoal dos ditadores de plantão à época?

Por que não firmou esses convênios, uma vez que todas as provas dessa barbárie, da ação da Operação Condor (aliança entre os diversos órgãos da repressão montados pelas ditaduras da América Latina para eliminar adversários) já estão reunidas e são evidentes? Agora, mais documentos, mais provas, mais evidências, vêm à tona.

Ação da Condor no Rio, e, Buenos Aires…

O desaparecimento de dois estrangeiros e de um brasileiro no Rio durante a ditadura militar no Brasil pode estar ligado ao sumiço de dois brasileiros na Argentina ocorrido poucos meses depois. Documentos mostrando a vinculação entre todos esses crimes foram descobertos e expostos pela Comissão Nacional da Verdade (CNV) e pela historiadora Janaína de Almeida Tele, no fim de semana, em uma audiência pública conjunta com a Comissão Estadual da Verdade de São Paulo.

De acordo com os documentos da CNV, no dia 21 de novembro de 1973, o francês Jean Henri Raya (residente na Argentina), o brasileiro Caiupy Alves de Castro e o argentino Antonio Luciano Pregoni desapareceram no Rio.

As apurações da Comissão, conduzidas pelo Grupo de Trabalho Operação Condor – coordenado pela advogada Rosa Cardoso -, apontaram que os três desaparecimentos ocorridos, acredita-se que no mesmo dia, no Rio, podem estar ligados ao sumiço de Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita, sequestrados em Buenos Aires em dezembro do mesmo ano e vistos pela última vez em janeiro de 1974 no DOI-CODI carioca da Rua Barão de Mesquita (Tijuca).

Francês chegou ao Brasil, hospedou-se em hotel e desapareceu

Caiupy era militante comunista e foi preso por um órgão de segurança no Rio na noite do dia 21 de novembro de 1973. O argentino Antonio Luciano Pregoni integrava o grupo Tupamaros, de resistência urbana à ditadura civil/militar uruguaia. Ele teria chegado ao Brasil no mesmo ônibus em que veio Jean Henri.

Jean Henri, francês, passou a maior parte de sua vida na Argentina. Ele saiu de Buenos Aires com destino ao Brasil, de ônibus, no dia 14 de novembro de 1973, ficou hospedado em um hotel em Copacabana por algum tempo e até hoje seu paradeiro é desconhecido. Em abril de 1974, sua mulher, Mabel Bernis, recebeu uma informação de que Henri fora sequestrado pelos órgãos de segurança no Rio, por causa de seus contatos com exilados brasileiros em Buenos Aires.

O documento principal sobre estes todos estes desaparecidos data de 14 de março de 1974 e foi encontrado pela CNV no Arquivo Nacional. Nele, o agente do Centro de Informações do Exército (CIEX) Alberto Conrado Avegno (que usava o codinome Altair) relata novidades recebidas de um outro informante sobre os desaparecidos.