quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Mulheres do Rio Negro: a avó do mundo - Por Ribamar Bessa Freire*


Durante uma semana, de 16 a 22 de outubro, convivi com três índias em Canafé, no município de Santa Isabel (AM). Adelina Sampaio, Larissa Duarte e Adilma Lima participaram com mais 50 índios do II Curso de História Indígena no Médio e Alto Rio Negro. Elas são netas legítimas da Ye´pá-Bahuári-Mahsõ, Avó do Mundo, criadora do universo, cujo lugar é ocupado, em outras mitologias, por um Deus masculino, descartado no mito Tukano porque, sem útero, ele não pode fazer gentes. Aqui quem cria o mundo e gera os primeiros seres é uma entidade feminina. Faz sentido.

Como isso aconteceu? Foi assim. No princípio, o mundo não existia, só havia escuridão e o espaço vazio e triste, o espaço frio e sem ideias. Surge, então, aYe´pá, dentro de uma nuvem branca, de brilho intenso, embalada por cantos sagrados. Ela vem dançando, abraçada pela música que, em forma de redemoinho de vento, acaricia-lhe o corpo, penetra sua carne, seus ossos e até seus pensamentos. Grávida de música, a Avó do Mundo cria a Casa da Terra, parindo as gentes e os primeiros seres, como conta Gabriel Gentil em Mito Tukano: Histórias proibidas do Começo do Mundo.

Uma boa notícia: todos nós, leitores – você, eu e até aqueles que ignoram isso – somos filhos da Música que fecundou a Avó do Mundo e, com muito mais razão, o são as três índias, falantes de língua Tukano: Adelina, Dessana, 22 anos, da Comunidade Balaio; Larissa, Tukana, 19, de Taracuá; Adilma, Tariana, 33, de Iauareté. Neste curso organizado pela Federação das Organizações Indígenas do Rio Negro (FOIRN) e pelo Instituto Socioambiental (ISA), elas fizeram intervenções oportunas sobre o papel da mulher nas lutas indígenas.

O curso do rio

No território indígena do Rio Negro há mais de 100 rios, cerca de 1.000 igarapés e 30 mil olhos d’água. Lá vivem 50 mil netos da Avó do Mundo, que habitam 873 comunidades e sítios indígenas, segundo o Censo de 2010 do IBGE. Uma dessas comunidades é Canafé, com 96 moradores. Foi lá, na Escola Yandé Putira – Nossa Flor - que aconteceu o curso de formação de liderança, cujos participantes, falando diferentes línguas e provenientes de diversos rios, foram selecionados por uma comissão. Eles se deslocaram à Canafé para seguir as duas etapas sequenciadas do curso.

Na primeira etapa, com o doutor Geraldo Pinheiro, ex-professor da Universidade Federal do Amazonas e pesquisador da Universidade do Porto (Portugal), abordamos a história da ocupação do Rio Negro desde tempos imemoriais, recorrendo à arqueologia e às narrativas míticas. Depois, apoiados em documentos de arquivos de Portugal e do Brasil e nos relatos de viajantes e missionários, discutimos a catástrofe demográfica do período colonial, a escravização de índios, a catequese e a resistência dos Manáos, Baré, Baniwa, Tukano e demais povos.

Destacamos ainda a história das línguas, a repressão aos idiomas indígenas, a expansão do Nheengatu, a introdução do português na região e a situação das línguas em contato. Na segunda etapa, a história do movimento indígena foi abordada por três dirigentes: o líder histórico Baré Braz França, ex-presidente da FOIRN (1990-1997), o Tukano Maximiliano Menezes, presidente da COIAB – Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira e Marivelton Barroso, jovem liderança Baré, atual diretor da FOIRN.

Foi um momento singular em que os mais velhos transmitiram aos jovens as experiências de luta pela demarcação de terras e pela construção das organizações indígenas. O Curso vai durar mais de um ano, com módulos temáticos, que ocorrerão em São Gabriel da Cachoeira e nas comunidades.

Direitos da mulher

Posto que uma mulher criou o mundo, as perguntas de Larissa, Adelina e Adilma giraram em torno do papel atual das mulheres na luta indígena. Maximiliano, Braz e Marivelton listaram nomes que se destacaram: Almerinda Lima, atual presidente da FOIRN, Joaquina Sarmento dos Santos, fundadora da entidade e outras diretoras da Foirn e de associações locais: Edina Trindade, Rosilene Pereira, Madalena Paiva, Cecília Albuquerque, Bibiana, Regina Duarte, Edinair Torres, Olimpia Melgueiro, Jacinta Sampaio, Carmen Figueiredo e tantas outras.

Todas elas enfrentaram desafios políticos e familiares para conciliar a militância com a criação dos filhos, os cuidados da roça, a confecção de artesanato de palha, tucum, cuias, cerâmica, além de viagens para participar em reuniões, oficinas, encontros, assembleias. Há um mês, em setembro, a Foirn, através do Departamento das Mulheres Indígenas do Rio Negro (DIMIRN), realizou em Santa Isabel uma oficina sobre os direitos da mulher indígena, quando 50 mulheres discutiram os problemas enfrentados nos três municípios e comunidades do Rio Negro.

Jose Ribamar Bessa Freire é professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas.