terça-feira, 1 de outubro de 2013

Delegado apontado como torturador convocado para depor na Comissão da Verdade


“Em janeiro de 1976, ele mandou me buscar na cela e me mostrou um jornal onde estava estampada a manchete: ‘Terrorista morre em tiroteio’. Eu disse a ele que era mentira, que era uma farsa, que havia visto Carlos Danielli sofrer tortura. E ele me respondeu: ‘Aqui, nós damos fim em vocês e damos a versão que nós queremos. Você também pode ter uma manchete dessas nos jornais se não colaborar’”.

Este trecho de depoimento prestado à Comissão Nacional da Verdade (CNV) e repetido em O Globo, edição deste domingo (ontem), é de Maria Amélia Teles, militante dos fóruns de direitos humanos. Ela recordou à CNV e ao jornal que o homem que a torturou e fez a ameaça usava o codinome de capitão Ubirajara. Como outros torturadores, Ubirajara era só o codinome, afirma a ex-presa política: seu algoz é o delegado aposentado da polícia civil paulista Aparecido Laertes Calandra.

Dela e de vários outros ex-presos políticos assassinados, como historia o jornal. Como o dirigente do PC do B, Carlos Danielli, assassinado pela ditadura há 40 anos. Calandra e sua equipe, segundo esse histórico recuperado pelo jornal, tiveram participação, também, na morte de Hiroaki Torigoi, dirigente do Movimento de Libertação Popular, e do jornalista Vladimir Herzog, no DOI-CODI, no início da década de 70 comandado pelo coronel do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Agora, a pedido da Comissão da Verdade da Câmara Municipal de São Paulo, a CNV resolveu convocar Calandra para depor. Mas o presidente da Comissão paulistana, vereador Gilberto Natalini (PV), antecipa que há dois meses enviou a Calandra ofício para ele depor e o delegado não aceitou.

“Se me intimarem (agora), irei, mas estão me chamando no lugar de outra pessoa. Não sei do que se trata; estão me confundindo com alguém que eu não sei quem é”, declarou Calandra ao O Globo deste domingo. Pode-se aguentar tanto cinismo? O fato é que temos, assim, mais uma denúncia com provas, que aponta um torturador que se recusa a depor. Até quando?