quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Exumação de Jango, mais um passo em busca da verdade histórica



Começou na manhã de hoje, e prossegue amanhã, a exumação dos restos mortais do ex-presidente João Goulart – o Jango – em São Borja (RS), sua cidade natal, onde seu corpo foi sepultado sem que permitissem a realização de autópsia e nem que o caixão fosse aberto no Brasil. A determinação dos militares, durante a ditadura do general-presidente Ernesto Geisel, sempre suscitou dúvidas.

A principal suspeita é que ele tenha sido envenenado (colocação de uma cápsula entre os remédios que ele tomava para problemas cardíacos), em 6 de dezembro de 1976, durante seu exílio na Argentina. Com a exumação e as investigações que começam hoje, a dúvida histórica será, finalmente, esclarecida.

Amanhã os restos mortais do ex-presidente Jango seguem para Brasília, onde serão recebidos com honras de chefe de Estado pela presidente Dilma Rousseff e ex-presidentes da República, na Base Aérea de Brasília. Os ex-presidentes Lula, Fernando Collor de Mello e José Sarney confirmaram presença. FHC ainda é dúvida porque continua com problemas de saúde – diverticulite.

A exumação se dá a pedido da família de Jango e os trabalhos estão sendo conduzidos por um grupo especial que envolve representantes da Comissão Nacional da Verdade, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos da Presidência da República, da Polícia Federal (PF) e especialistas indicados pela família, dentre os quais, experts cubanos que dirigiram a recuperação dos restos do Che Guevara na Bolívia nos anos 90. Também participam uma Equipe Argentina de Antropologia Forense e representantes da Cruz Vermelha Internacional.

“Estavam decididos a fazer de tudo”

Em entrevista à Carta Maior, João Vicente – filho de Jango – reitera a suspeita de que seu pai foi vítima da Operação Condor, aliança entre as ditaduras militares no Cone Sul, que tinha por objetivo assassinar a esquerda e os opositores das ditaduras. “Parece bastante claro que as ditaduras de Geisel e Videla atuaram em conluio para impedir a realização de uma autópsia como costuma suceder quando morre qualquer ex-presidente no exterior”, afirma João Vicente.

João Vicente também avalia que os generais ditadores Jorge Rafael Videla (Argentina), Augusto Pinochet (Chile) e Ernesto Geisel, “estavam decididos a fazer tudo, acho que até a eliminação física, para impedir o retorno de meu pai (ao Brasil). Eles o viam como um risco à estabilidade de uma ditadura cada vez mais questionada internamente”.

O filho de Jango conta que há papéis secretos ordenando a detenção imediata de seu pai caso ele atravessasse a fronteira para retornar ao Brasil. “Há pouco me fizeram chegar um documento de 1976, que tem a marca d´agua do Exército, onde se ordena que os serviços de inteligência reforcem sua perseguição na Argentina, ou seja: eles estavam permanentemente em cima dele”.

Troca de remédios teria apoio da CIA

João Vicente também revela que um ex-agente da Inteligência uruguaia, preso há mais de 10 anos em Charqueadas (RS), afirmou à PF que Jango foi envenenado, “introduzindo comprimidos adulterados nos remédios que tomava devido a um problema cardíaco, e que isto se fez com o apoio da CIA, através de seu chefe em Montevideu em 1976, o agente Frederick Latrash e de Sergio Paranhos Fleury, o caçador de opositores e chefe do DOPS – Departamento Ordem Política e Social paulista. Além de sua autonomia, a verdade é que Fleury era um repressor subordinado a uma hierarquia da ditadura”.

Deposto pelo golpe militar de 1964, Jango viveu seu exílio no Uruguai e na Argentina. Foi o único ex-presidente brasileiro a morrer no exílio e o menos estudado na história, dentre todos os chefes de governo do país porque os militares o estigmatizaram para a opinião pública. Num curto intervalo de sete meses de 1976/1977, tiveram morte suspeita Jango, o ex-presidente Juscelino Kubitschek e o ex-governador Carlos Lacerda, os três maiores líderes opositores à ditadura.