domingo, 27 de julho de 2014

Para ex-agente do DOPS, morte de Malhães foi queima de arquivo.


Num dos mais longos depoimentos já prestados à Comissão Nacional da Verdade (CNV) – de dois dias, ontem e anteontem – o delegado Cláudio Guerra, da Polícia Civil capixaba e acusado de ligações com o Esquadrão da Morte durante o regime militar, classificou de “queima de arquivo” a morte do coronel do Exército, Paulo Malhães, ocorrida meses atrás. No depoimento, Guerra apontou o nome do responsável e detalhes do assassinato da estilista carioca Zuzu Angel em 1976. Foi a 1ª vez em 38 anos que um agente da repressão admitiu que Zuzu foi assassinada num atentado arquitetado pela ditadura militar.

Malhães foi o coronel que, em duas entrevistas aos jornais O Globo e O Dia, e à Comissão da Verdade fluminense, afirmou ter desenterrado os restos mortais do deputado Rubens Paiva da areia do Recreio dos Bandeirantes e comandado a operação de lançamento de seu corpo ao mar. Ele também relatou que os mortos da Casa da Morte de Petrópolis eram jogados em rios da serra fluminense.

Um mês após prestar seu depoimento, Malhães foi assassinado. A Polícia do Rio de Janeiro afirma que foi crime comum, durante um assalto a seu sítio na Baixada Fluminense. Mas, a CNV, a OAB pelo presidente da sua Comissão de Direitos Humanos, Wadih Damous, mais organizações humanitárias, pedem a continuidade das investigações sobre a morte de Malhães e que a Polícia Federal (PF)participe das investigações. A polícia fluminense dispensou a participação da PF na apuração. Outro coronel do Exército, Júlio Molina, com atuação na repressão, também morreu num assalto em novembro de 2012 em Porto Alegre.

“Eu olhava os corpos de curiosidade”

Agora neste seu depoimento, Cláudio Guerra, afirmou à CNV que tanto a morte de Malhães, quanto a de Molina, foram “queima de arquivo”. “Não só a morte do Paulo Malhães como a do coronel Molina, que morreu no latrocínio no Rio Grande do Sul, foram execução, queima de arquivo. É o mesmo modus operandi que nós usávamos no passado: simular um assalto, simular um acidente”, afirmou.

No depoimento à CNV, o ex-delegado do DOPS-ES reconheceu a imagem de 19 militantes, vítimas da ditadura. Contou, ainda, que levou 13 corpos para serem incinerados na Usina de Açúcar de Cambaíba, em Campos (RJ). Confessou, inclusive, que um deles foi morto por ele.
Ao todo, Guerra confessou que cometeu “5 ou 6″ assassinatos.

Afirmou, ainda, que os corpos eram retirados de um quartel, onde aconteciam as torturas e da Casa da Morte, em Petrópolis. E que durante dois anos, entre 1975 e 1977, ele retirava os corpos das vítimas desses locais e os levava no porta-mala de seu carro para incineração na usina. Cláudio Guerra é um dos acusados pelo Ministério Público Federal fluminense (MPF-RJ) de integrar uma das equipes encarregadas de prender falsos acusados para encobrir os verdadeiros responsáveis pelo atentado no show de 1º de maio de 1981, no Riocentro.

Outro depoimento que a CNV pretende colher nos próximos dias é o do coronel. Wilson Machado, dono do Puma que levava as bombas que explodiram no centro de convenções cariocas – uma delas no colo do sargento Guilherme do Rosário, morto na hora. O cel. Wilson estava ao seu lado. Mas, sempre que é mencionado para depor, o coronel desaparece. Agora, se não for voluntariamente, será obrigado pela PF.

“Preciso ficar em paz com a minha consciência”

Depois de repetir algumas vezes “não sou dedo-duro, mas preciso ficar em paz com minha consciência”, Cláudio Guerra prestou, também, informações sobre a morte da estilista carioca Zuzu Angel. Ele afirmou que o coronel do Exército, Freddie Perdigão, seu amigo pessoal, confessou-lhe ter planejado o acidente de carro que matou a estilista em um túnel no Rio, em 1976.

Guerra contou que Perdigão – falecido em 1998 – contou-lhe que estava no carro que bateu no da estilista, jogando-o em um precipício e que depois voltou e ficou junto à equipe responsável pelo resgate no local em que Zuzu faleceu. “Foi autoria dele (o “acidente”). Ele não falou qual carro foi usado para bater no dela. Só falou que estava lá. E depois, quando estava lá para conferir e foi fotografado no local”, contou Guerra.

Ele exibiu fotos desse resgate à CNV, mas elas estão recortadas e Freddie Perdigão não aparece com nitidez no local. “Ele me narrava que, obedecendo a ordens superiores, tinha planejado essa simulação do acidente dela. E estava preocupado porque achava que a perícia tinha fotografado imagem dele sem querer”.

Até hoje FFAA negam

Como bem afirma o coordenador da CNV, Pedro Dallari, “é importante o reconhecimento que ele (Guerra) faz da presença de Freddie na cena do acidente de Zuzu. Até hoje, as Forças Armadas (FFAA) negam participação. A figura de Freddie na cena estabelece ligação entre o acidente de Zuzu e o sistema de repressão. Até hoje as FFAA insistem em negar que Zuzu tenha sido vítima de um assassinato”.

Dallari lamentou, novamente, a postura das FAAA, que não abrem seus arquivos da repressão, afirmam não tê-los mais e se recusam a cooperar com as investigações da comissão. “Ao longo do tempo, as Forças Armadas quiseram caracterizar as graves violações de direitos humanos como resultado de excesso de algumas pessoas. O depoimento do ex-delegado Cláudio Guerra mostra que não é assim, que era uma política de Estado”, observou Dallari.

Dentre as novas vítimas reconhecidas por Guerra, está o coronel dissidente Joaquim Cerveira, dado como desaparecido na Argentina: “Quando o coronel Perdigão (influente na área de repressão e informação do regime militar) “entregou”, disse quem era, disse que era um melancia”. Melancia era o nome dado pelos agentes da ditadura aos militares dissidentes, homens que se recusaram a compactuar com a ditadura e as violações aos direitos humanos cometidas – melancia porque “vermelhos” – e no período e que lutaram, bravamente, pela liberdade neste país.