quinta-feira, 11 de setembro de 2014

FFAA não colaboram com Comissão da Verdade e estimulam infração militar.


“Há uma resistência por parte de depoentes em colaborar com a comissão e nós temos absoluta clareza de que eles, de certa maneira, estão sendo estimulados pelo fato de que até hoje as Forças Armadas (FFAA) se recusam a reconhecer que houve tortura e graves violações aos direitos humanos, na qual tiveram papel protagonista”.

A declaração acima, que pode parecer uma denúncia e só não é porque isso já é de conhecimento público há tempos, é do coordenador da Comissão Nacional da Verdade (CNV), ex-deputado Pedro Dallari, ao analisar a recusa de um tenente do Exército que atuou na Guerrilha do Araguaia (1ª metade dos anos 70) e agora se recusou a depor sobre suas atividades na repressão e extinção do movimento.

O tenente, José Conegundes do Nascimento, não só se recusou a depor ontem como enviou um ofício com provocações à comissão, dizendo que se recusava a comparecer a audiência e a depor porque não ia colaborar com o inimigo. “Não vou comparecer. Se virem. Não colaboro com o inimigo”, diz Conegundes no documento. O coordenador nacional da CNV, Pedro Dallari, anunciou ontem mesmo iniciaria gestões junto ao Ministério da Defesa para que seja investigada a atitude do oficial, classificada por Dallari como uma “afronta”.

Exército proibiu seus integrantes e unidades de darem prestarem qualquer informação

Além de Conegundes, outro oficial, o general do Exército José Brandt Teixeira também se recusou a comparecer lembrando que que, “segundo orientação do Comando do Exército, as convocações devem partir daquela autoridade”. Há menos de um mês o Ministério Público do Rio descobriu que o comandante do Exército, general Enzo Peri, baixou uma lei do silêncio e proibiu todas as unidades militares de prestarem quaisquer informações sobre torturas, assassinatos e outros crimes cometidos em suas dependências durante a ditadura.

“(A desobediência e não comparecimento) É uma afronta à comissão, constituída por lei e que tem o direito de colher esses depoimentos. Optamos por informar ao ministro da Defesa para que a pasta apure a infração disciplinar”, completou Dallari. Ele justificou o pedido adiantando que há informações, também, de que isso pode estar ocorrendo por “problemas de saúde (do general e do tenente convocados), eles estariam passando por desequilíbrio (mental) já que são pessoas idosas”.

Dallari acentuou, de novo, que a resistência de muitos oficiais a comparecer aos depoimentos está sendo “estimulada” pela atitude das FFAA em não reconhecer que houve violações aos direitos humanos em suas dependências durante a ditadura.