terça-feira, 13 de maio de 2014

Wilson Reis e a luta por ‘melhores condições de trabalho e salário e a exigência do diploma’

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Em continuação a série de entrevistas intitulada ‘Jornalismo: Mercado e Academia’, apresentamos desta vez a atuação sindical que envolve a classe. Qual a função do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Amazonas? O que ele tem feito para melhorar a relação trabalhista da categoria? Por que vale a pena se sindicalizar? Como tem atuado na questão da defesa do diploma para exercício da atividade? Essas e outras questões são esclarecidas pelo jornalista Wilson Reis, atual presidente do órgão, com grande experiência entre redações e assessorias.

Antes, porém, de começar a responder os questionamentos d’O Segundo Registro, Wilson ressaltou que buscou fazê-la de forma sintética. “Contudo, como as ações sindicais localizam-se num amplo campo, o melhor seria a discussão de forma ampliada envolvendo, inclusive, outros profissionais da comunicação, num momento em que vivemos a convergência das mídias e o impacto que a revolução da Internet provocou no jornalismo.”, explicou ele acrescentando esperar que possa contribuir para esclarecer a importância do sindicato e de suas ações. Confira.

Foto: Rômulo Araújo
01 – Wilson, você já passou por redações, assessorias e agora preside o Sindicato dos Jornalistas do Estado. Inicialmente, como você avalia essa relação dos profissionais da área entre si e com o SJPAM?

Parte da categoria formada por profissionais mantém boa relação com o Sindicato, participando de suas atividades e expressando conhecimento sobre as relações de trabalho nas redações e assessorias que atuam. O grupo de profissionais composto por profissionais mais novos ou recém graduados têm, de uma forma geral, revelado maior distanciamento das questões sindicais. Atribuo tal comportamento a três fatores: desconhecimento da legislação trabalhista, pressão das empresas contra a organização sindical e o fato de trabalhar em mais de um local.

02 – De modo geral, qual o papel do sindicado para a categoria?

É de uma entidade para lutar com base aos dois eixos principais da ação sindical: melhores condições de trabalho e salário. E, além destes, ser referência para as questões nacionais da categoria, como a luta pela exigência do diploma para o exercício da profissão.

03 – Como e quais as vantagens de ser um jornalista sindicalizado?

Além de estar sintonizado com o que acontece com as principais questões dos colegas profissionais e, hoje, inclusive dos estudantes (estagiários) que atuam nas redações, o sindicalizado (a) dispõe de assessoria jurídica e convênios de assistência à saúde (Uniodonto e Sesc) e de Lazer (Sesc). É bom frisar a esse respeito o fato de não tentar substituir nas ações que são dever das empresas ou do estado na formulação de uma assistência à saúde mais ampla aos profissionais e cidadãos.

04 – Nesse tempo que você assumiu, que mudança você destacaria, algo como uma conquista para a área e qual um objetivo ainda a ser alcançado?

São vários os objetivos ainda a serem alcançados. A categoria nacionalmente vive o impacto de uma ação coordenada pela empresas de comunicação, que em nome de uma falsa modernidade (porque de moderno existem apenas os equipamentos para realizar a produção diária dos veículos) com maior impacto no ano de 2013, demitiram muito, contrataram pouco em meio a um processo de achatamento salarial. Contudo, consideramos positivo o cumprimento dos Termos de Ajuste de Conduta (TACs) sobre cláusulas da Convenção Coletiva que há tempo não estavam sendo cumpridas e a obrigatoriedade da participação do Sindicato no ato de assinatura dos contratos de prorrogação de jornada de trabalho.

05 – Nessa atuação em defesa dos jornalistas, tivemos recentemente alguns casos de impedimento ao exercício da profissão a profissionais em Manaus. Também temos acompanhado casos de agressão a jornalistas pelo Brasil. Como o sindicado atua nessas ocasiões e que orientação você dá para os colegas que passarem por situações assim?

A agressão aos profissionais da imprensa em todo País é hoje, infelizmente, uma realidade. A Federação Nacional dos Jornalistas – Fenaj e o Sindicato no Amazonas, além das notas de repúdio publicadas, condenando esses fatos, tem exigido das empresas os equipamentos de proteção para prevenir situações e denunciado os casos ao Ministério da Justiça, em Brasília/DF. Defendemos as manifestações da população e exigimos segurança para trabalhar. Por último, a Convenção de Trabalho no Amazonas, assegura o direito a assistência jurídica aos profissionais a serviço das empresas. Além disso, oferecemos assistência jurídica caso a empresa deixe de cumprir com o acordado.

06 – Wilson, nessa questão de trabalho, temos alguns problemas rotineiros como a desvalorização financeira de profissionais, jornada de trabalhos excessivas e sem pagamentos de hora extra, atraso em salários, perseguições a profissionais que se manifestarem contra alguns interesses da empresa, entre outros. De que forma o sindicado tem dialogado junto aos jornalistas e empresários, a fim de melhorar essa relação trabalhista?

Temos realizado intervenção direta junto as empresas jornalísticas. No jornal Amazonas Em Tempo, por exemplo, da Rede Raman de Comunicações o ano de 2013 foi marcado pelas assembleias de redações em que os profissionais ameaçaram, em três situações, de paralisar as atividades ou a redução dos cadernos nos finais de semana caso o veículo não honrasse o pagamento de salários. Contudo, a luta prossegue, pois ainda existem outros descumprimentos da legislação trabalhista, como não pagamento de horas-extras, não recolhimento do FGTS, entre outros.

07 – Sempre válido um comentário sobre a questão da exigência do diploma para exercer a profissão de jornalista. Você acredita que a decisão da não exigência interferiu em algo para o mercado local, nesse tempo? A que passos anda essa luta?

Depois de vir a ser aprovado em duas votações no Senado Federal, em 2013, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC encontra-se na atualidade na Comissão Especial da Câmara dos Deputados, à espera de da conclusão dos trabalhos e encaminhamento à plenário para discussão e aprovação. Acreditamos (Fenaj e os 31 sindicatos nos Estados) na melhoria das relações trabalhistas e de mercado a partir de sua sanção.

08 – Falando nisso, qual sua avaliação sobre os jovens jornalistas, que geralmente não estão com diploma ainda, mas já executam trabalho de profissionais? Sobre isso, como o sindicato tem atuado?

Os que não têm diploma da graduação emitido por uma Instituição de Ensino Superior – IES e atuam no mercado, estão irregulares pois não têm o Registro Profissional junto ao Ministério do Trabalho e Emprego (as exceções ficam para as funções de jornalista – art. 11 do Decreto 83.284/79). Para agravar a situação, as empresas estão intensificando – com a anuência de alguns colegas que estão em cargo de chefia nas redações – a contratação de estudantes sob o manto do estágio para pagar baixos salários e demitir profissionais com experiência. O Sindicato, tem, sistematicamente denunciado tal situação e solicitado fiscalização junto a Superintendência de Trabalho, a fim de coibir tais abusos.

09 – Wilson, você participa, frequentemente, de encontros no ambiente acadêmico, antes mesmo de estar a frente do sindicato. O que você acha dessa relação Universidade x Mercado e qual é o papel do sindicato nesse meio?

Deveria deixar de ser pontual apenas a relação Universidade, Empresas e Sindicato. Nossa entidade tem conversado com estudantes de jornalismo nas faculdades e Universidade, com o objetivo maior de unificar ações, levando em conta a importância de domínio da realidade onde irá atuar esses futuros profissionais. Contudo, creio que é um espaço que não conseguimos ocupar – em função de vários fatores – de forma mais adequada a fim de reduzir a falta de conhecimento.

10 – Por fim, gostaria de comentar algo que deixamos de abordar, ou de repente uma orientação a quem queira se aventurar nessa área?

Como jornalista que atuei em várias redações de jornais na cidade de Manaus, reforço a importância da organização dos profissionais e estudantes. Hoje, é cada vez menor o grupo de profissionais interessados em discutir os problemas da categoria, reflexo da exploração do trabalho (baixos salários e limitada condições de produção) e de instituições de ensino voltadas para graduar pessoas com domínio apenas das técnicas do jornalismo. É preciso que estudantes nas faculdades discutam e proponham cada vez mais mudanças e que os profissionais percebam quem são nossos verdadeiros adversários nessa luta pela melhoria das condições de trabalho e salário.

Fonte: http://www.osegundoregistro.com.br/wilson-reis-e-a-luta-por-melhores-condicoes-de-trabalho-e-salario-e-a-exigencia-do-diploma/