Meninas - Por Dom Sérgio Eduardo Castriani*


A globalização nos aproxima das tragédias que acontecem em todo o mundo e os meios de comunicação correm o risco de se tornarem um circo de horrores. O que pode acontecer é que nos acostumemos com eles e que perdendo a esperança nos fechemos em nosso pequeno círculo que pode ser invadido a qualquer momento ou desmoronar de forma impiedosa.

Uma tragédia específica foi tomando aos poucos o lugar de manchete internacional até chegar até a Casa Branca com direito a um pronunciamento indignado por parte da primeira-dama dos Estados Unidos. Trata-se do sequestro das meninas nigerianas. Como é possível que duzentas adolescentes e crianças sejam sequestradas sem deixar rastros. Num mundo onde tudo se sabe, porque a demora em libertar estas meninas? O Estado que deveria zelar pela segurança de seus cidadãos e que os trata com mão de ferro quando se trata da segurança nacional não é capaz de trazê-las imediatamente de volta. Outros países se ofereceram para ajudar.

O drama destas meninas levanta sérias questões para o mundo de hoje. Enquanto nos preparamos para a grande festa do futebol, milhares de crianças no mundo são transformadas em soldados, em mão de obra barata, em objetos sexuais. Os mesmos países, inclusive o nosso, que são capazes de organizar seleções para participar do mundial não são capazes de proteger suas crianças. Neste caso concreto afirma-se que quem sequestrou foi um grupo radical de origem religiosa.

Coloca-se aqui o problema do fundamentalismo religioso que usa a tecnologia mais moderna possível para matar e destruir o diferente. Mas quem os financia, quem fornece as armas, que mercado os alimenta e é alimentado por este comércio mortal? Por se tratarem de meninas ficamos mais sensíveis. Meninas são símbolo de pureza e de ingenuidade. Suas imagens e figuras lembram sonhos e paisagens de primavera quando a vida desabrocha em toda a sua beleza. Seu sequestro nos faz corar de vergonha, pois são seres humanos os autores da barbárie.

Isto poderia acontecer no Brasil? Infelizmente acontecem coisas piores ou semelhantes. O tráfico e o abuso existem e pelo que vem à tona tem as suas ramificações em todos os extratos sociais, e de maneira odiosa nos meios onde poder econômico e político se encontram. Vivemos hoje numa cultura de violência difusa e generalizada. O crime organizado tem seu cortejo de vítimas cada dia. O trânsito mata impiedosamente. As diferenças sociais aumentam. A pornografia disfarçada em entretenimento toma conta dos meios de comunicação.

Comunidades religiosas cujos membros se julgam salvos e melhores que todos se multiplicam e se radicalizam. Grupos radicais queimam ônibus, depredam prédios públicos. As pessoas se irritam com facilidade. O Estado apesar da sua fúria arrecadadora não se mostra capaz de administrar a situação. É preciso repensar tudo isto. Que mundo queremos? Qual o nosso futuro?

Cristãos, não podemos perder a esperança. Cristo ressuscitou, a morte foi vencida, o cordeiro imolado é vencedor. Os sequestradores de crianças e abusadores de meninas não terão a última palavra.

* Dom Sérgio Eduardo Castriani é Arcebispo Metropolitano de Manaus

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