domingo, 25 de maio de 2014

A mãe de todos os piquetes: a greve do capital - Por Saul Leblon


O golpe militar consumado na Tailândia 5ª feira, o 18º da história do país (11 bem sucedidos), parece confirmar a eficácia de um protocolo de validade mais ampla.

No caso tailandês, a proclamação militar foi antecedida de 28 mortes e centenas de feridos em meses de conflitos de rua.

Abstraído o sangue e demais singularidades, a plasticidade da superfície poderia se confundir com a realidade política em marcha lenta em outras latitudes.

Antes que o rosto do general Prayuth Chan-Ocha surgisse nos monitores de tevê 5ª feira, para proferir o clássico ‘viemos por ordem na casa’, o país viveu um processo tão linear que parece, de fato, como acusam alguns, ter saído de um manual.

Aquele atribuído à norte-americana Fundação Albert Einstein, supostamente de estreitas relações com a CIA. 

Seu principal ‘estrategista’, um certo Gene Sharp, seria o autor de livretos instrutivos. Entre eles, ‘A política da ação não violenta’, no qual elenca 198 técnicas para golpes em câmera lenta.

Sob risco de cometer injustiça com o rico repertório do senhor Sharp, poderíamos fundir essa versátil suavidade em três momentos encadeados:

I) Promoção de fatores de mal estar: escalada de denúncias de corrupção, de criminalidade, de autoritarismo e incerteza econômica; o martelete do descontrole inflacionário deve disputar as esquinas com as manchetes do colapso iminente em áreas de abastecimento e/ou de serviços essenciais. Tudo aspergido de frequentes ‘evidências’ de ameaças à liberdade de imprensa. Em resumo, a crispação de um intolerável quadro de desgoverno, sancionado por pesquisas de opinião, reportagens e análises reiterativas.

II) O mal-estar vai às ruas: bandeiras legítimas, exacerbadas pelo ultimatismo e desprovidas de coerência estratégica, fomentam uma espiral de protestos, conflitos e mobilizações insolúveis. Tudo magnificado pela lente de aumento das manchetes e câmeras de tevê. Bloqueios de rodovias e avenidas, assim como a tomada de instituições públicas, esticam as linhas de tensão para a etapa seguinte.

III) Ruptura institucional: a intensificação das manifestações inaugura uma rotina pontuada por enfrentamentos de violência crescente, respingados de escaramuças armadas. A engrenagem autopropelida leva à paralisia dos grandes centros urbanos. Um ponto de fuga converge então para a campanha pela renúncia de governantes ‘impopulares’, com prometida antecipação de eleições.

Pronunciamentos militares preenchem o ar rarefeito da paralisia política. Sugere-se uma referência de autoridade e ordem a uma democracia agonizante . O conjunto inocula uma progressiva familiaridade com a ideia de um golpe suave, tornado inevitável e até mesmo ansiado por uma sociedade exausta e assustada.

É possível enxergar traços de vários processos em curso na América Latina nesse filme que inclui cenas de outros ciclos golpistas, modulados agora pela supremacia da guerra midiática.

O episódio tailandês forma um compacto de ilustração pedagógica.

Nele se combinam oito meses de protestos contra um governo supostamente ‘populista’, descarnado progressivamente, em fatias, sob acusação de corrupção, usurpação de poderes etc.

Rejeitado pela elite e o funcionalismo, que gravita em torno da monarquia, ele conta, todavia, com apoio da parcela majoritária da população, que se concentra no norte tailandês e na área rural.

A elite local, sugestivamente liderada por um magnata das comunicações, na verdade rejeita a solução eleitoral, que lhe tem sido sistematicamente adversa.

Os elementos ostensivos desse percurso, planejado ou apenas inerente ao impacto da transição de ciclo mundial nas nações em desenvolvimento, não devem iludir.

Sobretudo, não devem alimentar simplificações mecanicistas na avaliação do quadro brasileiro.

Há algo mais grave do que os motins de ônibus atravessados nas grandes avenidas metropolitanas.

A mãe de todos os piquetes que bloqueiam as artérias do crescimento brasileiro é a greve do investimento.

Desequilíbrios macroeconômicos reais explicam uma parte dos braços cruzados do capital diante das urgências do país.

Um exemplo entre outros: o câmbio valorizado.

Ademais de incentivar importações baratas, ele atrofia a exportação, subtrai demanda à indústria local e leva a uma integração desintegradora diante das cadeias globais de suprimento e tecnologia.

Em vez de investir, fabricantes trocam máquinas por guias de importação.

O conjunto explica em grande arte os impasses da economia nos dias que correm.
Mas não explica tudo.

Se esquematismos conspiratórios devem ser rejeitados quando se analisa a exacerbação conservadora, o extremo oposto tampouco ajuda a entender a raiz do que está em jogo.

Quem vê no capitalismo apenas um sistema econômico, e não a dominação política intrínseca a sua encarnação social, derrapa no economicismo.