quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma cidade cosmopolita (Parte III – final) - Por José Aldemir*


O sentido de multiplicidade lhe cai bem do ponto de vista das experiências urbanísticas e da capacidade de coexistência de espacialidades diversas.

Vi Barcelona quando do Congresso Internacional de Geografia Crítica e tive o privilégio de participar do trabalho de campo com um dos mais importantes geógrafos contemporâneos, Horacio Capel, que nos mostrou parte da cidade, começando pelo Parc de Monjtjuïc até a Basílica da Sagrada Família. Fiz ainda observações pontuais nos intervalos do evento.

O Parc de Monjtjuïc fica em uma montanha entre o mar e a cidade e possibilita visualizar o porto antigo e o recuperado, o passeio de Barceloneta e, ao mesmo tempo, permite lançar o olhar sobre a cidade que se descortina em direção à serra, num traçado urbano em quadrículas característico das fundações romanas, além de visualizar os principais monumentos, velhos e novos, que se misturam às vezes de modo simétrico e outras nem tanto, dando a conformação urbana da cidade.

No topo do Parque está o Castell de Monjtjuïc, fortaleza medieval. Ao norte vemos exemplares representativos da arquitetura contemporânea como a Torre de Comunicações, o Anello Olimpic, o Palácio Sant Jordi e a Fundação Miró. No sopé da montanha há o Palácio Nacional e no rumo da Praça Espanha há um conjunto arquitetônico construído para a Exposição de 1929, símbolo do avanço urbanístico do período, completando-se, no outro lado, com as Arenas de Barcelona, antigas praças de touros, transformadas em templos de consumo moderno.

Barcelona encerra muitos contrastes e talvez seja uma das cidades ou a cidade mais cosmopolita da Europa, pois expressa o modo de vida da elite industrial catalã que esbanjava riqueza oriunda da indústria têxtil e dos negócios nas Américas e buscava no urbanismo avançado demonstrar a capacidade de realização como modelo de domínio econômico e político. Esse processo torna-se mais intenso no final do século XIX quando as muralhas medievais foram derrubadas e a cidade se expande sobre áreas de campo.

A cidade mistura diferentes paisagens que mostram a cristalização de tempos no espaço, sendo possível identificar a Barcelona romana, a gótica, a modernista e a contemporânea. São paisagens urbanas expressivas, mas sem dúvida o que marca são as obras de três arquitetos catalães: Antoni Gaudi, com destaque para a Basílica da Sagrada Família e o Palácio Güell; Lluís Domènech i Montaner com destaque para o Hospital de Sant Pau e o Palácio de La Música Catalã; e finalmente Josep Puig i Cadafalch com as Casas Amatller e Les Punxes e os projetos urbanísticos ligados às grandes avenidas.

Para o meu olhar que privilegia a paisagem consolidada, os edifícios contemporâneos como a Torre Agbar, o Hotel Santos Porta Fira e o Edifício Media-Tic aparecem como pontos fora da curva, numa paisagem urbana marcada pela harmonia das formas, do mesmo modo como parece exagero a reforma da Basílica da Sagrada Família, uma “monstruosidade urbana” na expressão de Horacio Capel.

Do ponto de vista urbanístico, a melhor demonstração da capacidade de resolver os contrastes em Barcelona é La Rambla Catalunya que começa na Avenida Diagonal e se estende para o sul até o mar no Mirador de Colon. Trata-se de um passeio com amplas calçadas que servem de corredores para a circulação, não de carros, mas de pessoas. Na parte central especialmente na área sul, a partir da Praça de Catalunya, localizam-se pequenos e simples comércios populares de roupas, culinária, flores e mudas de hortaliças. São pequenos quiosques limpos e bem arrumados que convivem com lojas sofisticadas e outras nem tanto, numa das áreas de maior concentração de pessoas da cidade.

Para quem se interessa em compreender as cidades, Barcelona é uma enciclopédia para estudos urbanos pelo expressivo patrimônio arquitetônico, pelas experiências urbanísticas e pela capacidade de resolver os contrastes do nosso agora. É possível que nenhuma outra cidade no mundo esteja tão permeada por ideias que apontem soluções urbanas em consonância com os acontecimentos políticos e econômicos contemporâneos.

Finalizo esta série de textos refletindo sobre cidades europeias. Identifico, não sem certa perplexidade, que há menos acordo do que havia no final dos anos noventa do século XX sobre qual a melhor maneira de dar sentido, tanto em termos teóricos como práticos, aos desafios que a cidade contemporânea nos colocam.

Neste sentido, não há certezas e sim muitas dúvidas, pois estamos num processo de transição que ainda não se completou e como tal não o compreendemos em sua inteireza.

O autor é geógrafo e professor universitário.