domingo, 30 de março de 2014

Sobre o silencio dos militares - Miriam Leitão


A cada nova confissão de um militar da reserva, como a do coronel Paulo Malhães, fica mais pesado o silêncio dos militares. A omissão não é apenas desrespeitosa; ela é significativa. O silêncio fala, se acumplicia, abona o que foi feito no passado. Em outros países da América Latina, as Forças Armadas reconheceram seu erro. É essencial para limpar o travo do passado.

O ministro da Defesa fez uma defesa inepta desse silêncio. Disse que é outra geração e que o Estado já pediu desculpas. Celso Amorim é inteligente demais para não ter entendido que o silêncio é deliberado e nasce do pacto entre gerações. Mesmo os da ativa estão convencidos de que Exército, Marinha e Aeronáutica fizeram tudo certo. Eles usam a loquacidade dos que estão na reserva para expressar o que realmente pensam.

Amorim diz que as Forças Armadas de hoje nada “têm a ver com aquilo”. Até outro dia comemoravam o sinistro 31 de março; emitiram notas em passado recente defendendo tortura; ensinam nos colégios militares a versão de que salvaram o país; fizeram a mais eloquente linguagem corporal que podiam no dia da instalação da Comissão da Verdade. O ministro sabe exatamente o que já ouviu em certas reuniões. Conhece as omissões e ouviu mais silêncios do que os outros brasileiros, e tem noção de que eles não colaboram no resgate do passado porque não querem. Que o ministro da Defesa não se coloque como biombo e ajude o país a levar as instituições ao comportamento adequado.
Não se quer humilhar as Forças Armadas, mas apenas romper a barreira do silêncio com a qual eles mantêm fortes os vínculos com as outras gerações que levaram as instituições militares a permitir o inaceitável.

Naquela época não existia DNA, concorda comigo? Então quando o senhor vai se desfazer de um corpo, quais são as partes que, se acharem o corpo, podem determinar quem é a pessoa? Arcada dentária e digitais, só. Quebravam os dentes e cortavam os dedos. As mãos, não. E aí se desfazia do corpo — contou o coronel Paulo Malhães, que trabalhava no Centro de Informação do Exército.
Ele atuou, junto com outros militares, na Casa da Morte, da qual se soube pelo heroísmo de Inês Etienne. Ela escapou com vida de um aparelho de extermínio montado pelo Exército, jamais descansou no esforço para informar o país a que ponto extremo chegou a instituição. São fartas as provas de que os torturadores não eram uma facção, mas obedeciam a uma cadeia de comando.

Todos sabemos dos serviços prestados ao país pelas Forças Armadas nos dias de hoje. Neste exato momento estão novamente sendo convocadas para socorrer o Rio de Janeiro na busca da unificação da cidade que o tráfico de drogas partiu. Do Rio à Amazônia há exemplos fortes do seu papel eficiente para fazer o país avançar. Isso, no entanto, não exime as Forças Armadas de reconhecer os erros da instituição quando implantaram no país o regime de força.

As indenizações de nada serviram. As desculpas apresentadas por governos civis lideradas por pessoas que estavam na oposição não substituem a obrigação das Forças Armadas de dizerem ao país onde foi que erraram.

Os pensadores e analistas vão ajudar a compor a narrativa completa do golpe que teve também apoiadores civis. Nada, no entanto, encobrirá o fato de que, dentro das instalações das Forças Armadas, brasileiros foram presos, torturados e mortos. Em alguns casos, nem os corpos voltaram para as famílias.

Não se quer vingança contra as Forças Armadas. Eles precisam repudiar esse passado porque é assim que se constrói um país e se fortalecem a democracia, as instituições. No silêncio, uma geração vira cúmplice da outra. O silêncio os condena e nos ameaça