quinta-feira, 13 de março de 2014

O Globo apoiou de corpo e alma o golpe e agora promove simpósio para discuti-lo


Em anúncio de meia página hoje, o jornal O Globo convida para o ciclo de debates que promove em três dias – 17, 24 e 31 próximos – sob o título “Ditadura militar brasileira, 50 anos”, na Casa do Saber O Globo, no Rio. A proposta do jornal, segundo o anúncio, é fazer “três encontros especiais sobre a Ditadura Militar brasileira que foi implementada há exatamente meio século, com o golpe de Estado que depôs o presidente João Goulart em 1964 e seus impactos até os dias atuais”.

Dentro dessa agenda, o jornal engloba a discussão em três temas, um a cada dia: “o impacto na cultura e na imprensa: a vida sob censura”; “as mudanças na sociedade, economia e aparelho estatal”; e “as lutas ideológicas e a geopolítica internacional”. O jornal convida o público, ainda, para uma visita, no local, à exposição “anos de chumbo”.

A exemplo da maior parte da grande imprensa brasileira, O Globo insuflou, instigou ao máximo, e apoiou antes, na deflagração e durante toda a ditadura militar o golpe de Estado de 1964. Interessante acompanhar uma seção chamada “Há 50 anos”, que o jornal publica diariamente em sua penúltima página, três ou quatro notícias de meio século atrás resumidas.

O tempo em que O Globo virou um panfleto anticomunista

Por ela se constata que O Globo, muito, mas muito antes mesmo do golpe, deixou de ser um jornal na acepção exata do termo e transformou-se num panfleto, com manchetes e noticiário anticomunista. Todos os dias o jornal arrumava um general, um bispo, um udenista, para denunciar o perigo vermelho e a ameaça comunista que, segundo ele, rondavam o Brasil. Na 1ª página e nas demais manchetes internas.

Até padre, militar de baixa patente e parlamentar do hoje chamado “baixo clero” – de atuação discreta, com pouco destaque – viravam manchete no jornal, desde que falassem contra o governo João Goulart e anunciassem o risco iminente de o país tornar-se comunista. E tudo para O Globo naquele período era ameaça comunista.

O jornal noticiava desapropriação de terra e assentamentos de reforma agrária como medidas comunizantes e até a reintegração de posse de terrenos na Baixada Fluminense, determinada pela justiça, virava notícia com títulos como “polícia desaloja comunistas de terreno invadido”.

No ano passado, o jornal tornou-se o único até hoje, dentre os grandes, a fazer um mea-culpa e a admitir que errou ao instigar e apoiar a quartelada de 1964. Melhor do que a Folha de S.Paulo que há não muito tempo, ao tratar da questão criou a expressão “ditabranda” em sua tentativa de convencer a opinião pública que a ditadura brasileira não foi tão feroz quanto a implantada em outros países do continente.