quinta-feira, 20 de março de 2014

O financiamento das marchas pró-golpe militar pela CIA


A colaboração das igrejas com a ditadura e/ou sua resistência ao regime militar tornou-se assunto meio tabu no Brasil, pouco discutida e quando debatido pouco aprofundado nestes 50 anos decorridos do golpe. Agora há um grupo na Comissão Nacional da Verdade especialmente voltado para o levantamento e estudo dessa questão e que vem enfrentando dificuldades porque, a exemplo do que que se verificou no último meio século, poucos querem falar.

Pois bem, a colaboração da Igreja com a ditadura e, também, sua resistência, as duas posturas e as cisões que marcaram a Igreja Católica no Brasil, são agora rememoradas por Frei Betto em uma entrevista imperdível sobre os 50 anos do Golpe.

Uma entrevista, aliás, que vem em boa hora, quando a famigerada Marcha pela Família com Deus e pela Liberdade encontra-se prestes a ser reeditada neste sábado (22.03), no país – no que depender de seus organizadores, em mais de 200 cidades brasileiras. Nesta entrevista Frei Betto explica, com todos os detalhes, como a CIA financiou a Igreja Católica em marchas pró-golpe militar.

Ele conta que em meados de abril de 1964, como membro da direção nacional da Ação Católica, participou na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de uma “furiosa discussão entre bispos conservadores e progressistas, tendo ganhado o setor conservador”. O religioso lembra que “o caldo de cultura do golpe havia sido preparado pela CIA no Brasil através do padre Patrick Peyton, que era o pároco de Hollywood e veio ao Brasil.”

O pagamento da CIA e o surgimento dos bispos progressistas

“Hoje – prossegue Frei Betto – já se sabe com documentos que ele era pago pela CIA para fazer as Marchas da Família com Deus pela Liberdade. Ele promovia grandes mobilizações nesse sentido. Portanto, quando veio o golpe, a Igreja agradece a Nossa Senhora Aparecida ter livrado o Brasil da ameaça comunista”.

Lembra, porém, que havia bispos progressistas que resistiram ao golpe, mas que eram minoria. “Os primeiros bispos progressistas estavam praticamente aparecendo no cenário brasileiro, como o d. Helder (Câmara, do Recife), o d. Waldyr Calheiros, que era bispo de Volta Redonda (RJ), o d. José Vicente Távora, de Aracaju. Mas eram poucos. O d. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, de São Paulo (presidente da CNBB à época), era um moderado, mais para progressista. Era muito amigo do Juscelino (Kubistchek)”.

Em relação às marchas em defesa do golpe, Frei Betto destaca dois militantes de extrema direita no episcopado: d. Geraldo Proença Sigaud, de Diamantina (MG), e d. (Antônio de) Castro Mayer, de Campos (RJ). Segundo ele, eram “patronos da TFP (Tradição Família e Propriedade)” – uma das mais conservadoras entidades já montadas no país – e “dois militantes ferozes do fundamentalismo conservador na igreja”, que “tiveram muita atividade, muito empenho, nessa aprovação do golpe por parte da CNBB”.

Perseguição a religiosos levou Igreja a abandonar posição conservadora

A mudança (nessa posição conservadora), porém, aconteceu. “A igreja mudou de posição à medida que padres, bispos e religiosos eram também perseguidos e vitimizados pela ditadura”, explica Frei Betto. Ele lembra que “o papa não se posicionou no início. Mais tarde, o Vaticano veio a censurar a ditadura. Porque com o tempo a repressão se estendeu também à igreja e daí criou-se nela não só uma divisão, mas a própria CNBB foi se afastando da ditadura”.

Isso fez com que, a partir dos anos 70, a CNBB fosse “praticamente a grande voz de defesa das vítimas da ditadura. Tanto que o mais importante documento sobre os mais de 20 anos de ditadura foi produzido pelo d. Paulo Evaristo Arns, o livro ‘Brasil Nunca Mais’, editado em parceria com o pastor presbiteriano reverendo Jaime Wright. A igreja e a própria CNBB se tornaram, a partir do AI-5 (baixado em 1968) , uma voz contra a ditadura.”