quarta-feira, 16 de abril de 2014

RIO MADEIRA: Águas baixam, mas estrago das hidrelétricas permanece

Foto: RIO MADEIRA CONTINUA EM VAZANTE, DESAFIO AGORA É PELA RECUPERAÇÃO DA BR-364

O nível do Rio Madeira segue diminuindo. De acordo com a equipe do governo do Acre e do Corpo de Bombeiros que atuam no local dos trechos alagados da BR-364, ontem, 49 caminhões atravessaram a rodovia, levando 608 toneladas de produtos. O número é menor do que o de anteontem, dia 13, quando passaram 76 veículos levando 1.285 toneladas. Isso porque há muitos atoleiros na estrada que dificultam a passagem de alguns veículos. 

São os problemas resultados dessa cheia histórica. Ainda há trechos alagados na rodovia alagados, mas a lâmina d'água não ultrapassa os 30 centímetros acima do asfalto nos pontos mais críticos. Equipes do DNIT já estão no local trabalhando na recuperação de vários trechos da BR. Vamos continuar acompanhando as informações e torcendo para que a situação volte à normalidade o quanto antes.
Por Christian Poirier
Albert Einstein disse que “não podemos resolver problemas pensando da mesma maneira que quando os criamos.” É evidente que as autoridades do governo brasileiro responsáveis pelo planejamento energético não levam em consideração tal sabedoria ao continuar promovendo o uso de usinas hidrelétricas em resposta à última crise energética no país, pondo em risco os povos da Amazônia, rios e florestas. Mas os ventos das mudanças climáticas continuam a soprar, trazendo o período de secas e inundações catastróficas que poderiam levar esse castelo de cartas por água abaixo.

Durante dois anos seguidos, as secas têm atingido o Sudeste do Brasil e o governo vem maximizando o uso de energia suja e cara produzidas pelas termelétricas para atender a demanda energética do país. Historicamente, a falta de água nos rios e reservatórios paralisam o uso das turbinas nas usinas em um país altamente dependente da energia hídrica. Na verdade, quase 80% da energia do Brasil é produzida em barragens, construídas com base no pressuposto de que os padrões de precipitação permanecerão regulares e constantes. O estragos criados pelas imprevisíveis mudanças climáticas contrariam esse modelo energético.

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A queda de energia põe em risco o abastecimento de eletricidade no país. Essas cenas de déjà vu têm criado insatisfação e aumentado o escrutínio público sobre o governo da Dilma Rousseff em um momento crítico, já que este é ano eleitoral. No entanto, enquanto esta situação cria uma demanda por inovação e visão para liderar o país através de um modelo energético mais diversificado, limpo e dinâmico, os responsáveis pelo planejamento do governo insistem que a atual crise no setor hidrelétrico exige que o país deva construir mais barragens! Einstein deve estar revirando-se nesse momento.

Enquanto isso, na Amazônia, onde a construção de barragens continua sendo uma prioridade que ameaça os direitos humanos e destrói o meio ambiente, inundações catastróficas abriram e desvendaram outro “buraco” nos planos do governo. As mega-barragens de Santo Antônio e Jirau, construídas no percurso do Rio Madeira, são conhecidas por serem as primeiras barragens na Amazônia durante o governo do PT. Ao invés de aumentar a produção de energia no Brasil, essas barragens estão criando mais inundações no Rio Madeira como nunca visto antes. Apenas agora é que as águas estão começando a baixar, depois de mais de um mês de cheia extrema, com impactos provavelmente ampliados pelos lagos das usinas.

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Com suas maciças paredes de concreto cortando o rio, as barragens do "Complexo Madeira" retêm as águas do Madeira e, devido à grande quantidade de chuva na região e talvez também ao degelo nos Andes, podem até alagar o país vizinho, a Bolívia, onde a inundação matou mais de 60 pessoas e 90.000 cabeças de gado, causando danos por enquanto incalculáveis.

A inundação do Rio Madeira colocou em risco a cidade de Porto Velho, onde milhares de famílias foram evacuadas pela força do rio. Devido ao nível d'água, o estado do Acre ficou completamente isolado, o alagamento de estradas levou o governador Tião Viana (PT) a declarar estado de emergência. Só agora, depois de semanas, pode-se ver novamente a estrada, antes debaixo d'água. O dilúvio é considerado por alguns "o maior desastre ambiental que a Amazônia já viveu", disse o governador.

As usinas hidrelétricas no Brasil são os verdadeiros vilões nessa história, alterando drasticamente o fluxo natural do mais importante afluente do Rio Amazonas, criando inundações desastrosas.

Foto: A ORIGEM DA CHEIA DO MADEIRA

Um técnico respeitado na comunidade científica do mundo inteiro, Marc Dourojeanni, apresenta  uma tese sobre a origem da cheia do Madeira, que bateu recorde histórico neste ano. Eu  reproduzo aqui o texto da reportagem feita com ele na íntegra:

DESMATAMENTO ANDINO PROVOCA "TSUNAMI" AMAZÔNICO
O desmatamento, especialmente nos Andes da Bolívia e do Peru, é o que mais agrava as inundações na bacia do rio Madeira, que este ano adquiriram status de catástrofe na Amazônia boliviana e em seu desaguadouro brasileiro. Essa é a análise de Marc Dourojeanni, professor emérito da Universidade Nacional Agrária de Lima, em contraste com ambientalistas e autoridades bolivianas, que insistem em culpar as hidrelétricas brasileiras de Jirau e Santo Antônio pelas inundações sem precedentes que castigaram o departamento de Beni.

"Não tem lógica", explicou Dourojeanni à IPS. Seria necessário revogar a lei da gravidade e a topografia para ignorar que, nesse caso, os brasileiros sofrem mais os efeitos do que ocorre na Bolívia do que o contrário, sem descartar os muitos pecados das represas. O rio Madeira é o maior afluente do Amazonas e recebe águas de quatro grandes rios, cada um com mais de mil quilômetros de extensão e bacias que formam uma área de drenagem de 903.500 quilômetros quadrados, a superfície da Venezuela e quase o dobro da da Espanha.

Com 80% dessa área, a Bolívia capta, em dois terços de seu território, águas que escorrem até o Madeira por mais de 250 rios, em forma de funil, que deságuam no Brasil. Do Peru provém o rio Madre de Dios. A essa vastidão se acrescenta o acentuado declive. Três de seus grandes afluentes - Beni, Mamoré e Madre de Dios - nascem nos Andes, entre 5.500 e 2.800 metros de altitude, e caem abaixo dos 500 metros nas planícies amazônicas bolivianas.

Essas ladeiras "há mil anos estavam cobertas por florestas e agora estão peladas", em grande parte pelos incêndios para abrir espaço para uma agricultura de subsistência, afirmou  Dourojeanni, agrônomo e engenheiro florestal, responsável pela Divisão Ambiental do Banco Interamericano de Desenvolvimento na década de 1990. A consequência são as torrentes de água que chegam e param nas planícies bolivianas, alagando-as, e seguem para o Brasil. Boa parte dessas planícies são inundáveis até mesmo quando ocorrem chuvas normais.

Este ano, morreram na Bolívia 60 pessoas e 68 mil famílias ficaram desabrigadas pelas cheias, em uma repetição acrescida de tragédias semelhantes provocadas pelos fenômenos El Niño e La Niña, antes de serem construídas as represas brasileiras. O desmatamento em ladeiras andinas entre os 3.800 metros de altitude, onde começam as florestas, e os 500 metros é enorme na Bolívia e no Peru, mas não aparece nas estatísticas oficiais, denunciou Dourojeanni, também criador da fundação peruana Pró-Natureza.

Sem barreiras para o declive, arma-se um "tsunami" em terra firme, que no primeiro trimestre atingiu seis departamentos bolivianos e o fronteiriço Estado brasileiro de Rondônia. As casas de mais de cinco mil famílias brasileiras foram inundadas pela cheia incomum do Madeira, especialmente em Porto Velho, capital de Rondônia, onde estão as duas hidrelétricas. A estrada BR-364 ficou intransitável desde fevereiro, isolou o vizinho Estado do Acre por terra e afetou o abastecimento de alimentos e combustíveis. Doenças como leptospirose e cólera também fizeram vítimas.

A busca por culpados, também no Brasil, se voltou para as represas. A justiça federal ordenou que as empresas proprietárias das centrais apoiassem as vítimas com alojamento adequados, entre outras medidas. Além disso, as empresas terão que fazer novos estudos de impacto das represas, supostamente responsáveis por agravar a cheia do rio. As duas centrais ampliaram sua capacidade a respeito do projeto inicial sem fazer uma avaliação.

Empresas e autoridades tentam convencer a irada população local de que a catástrofe não se agravou pelas duas represas recém-enchidas. Chuvas tão intensas "só ocorrem a cada 500 anos" e, com uma bacia tão extensa acumulando água, é natural que as planícies sejam inundadas, como ocorreu também em quase toda a Bolívia, pontuou Victor Paranhos, presidente do consórcio Energia Sustentável do Brasil, que opera Jirau, a central mais próxima da fronteira boliviana.

Desde 1967, o fluxo do rio Madeira é monitorado e o nível máximo registrado em Porto Velho foi de 17,52 metros em 1997, destacou Francisco de Assis Barbosa, responsável estadual de hidrologia do Serviço Geológico do Brasil. No final de março esse nível atingiu 19,68 metros, em um ano "totalmente atípico", acrescentou à IPS. A pluviosidade extrema na bacia do Madeira teve como contraponto a forte seca em outras partes do Brasil, que gerou uma crise energética e escassez de água em São Paulo.

Uma massa de ar seco e quente estacionou no centro-sul do país entre dezembro e março, bloqueando ventos que transportam umidade da Amazônia, e, assim, a precipitação se concentrou na Bolívia e no Peru. Esses eventos climáticos tendem a se repetir com maior frequência devido à mudança climática global, segundo climatologistas. O desmatamento afeta o clima e exacerba seus efeitos.

Transformar uma floresta em pastagem multiplica por 26,7 a quantidade de água que escorre para os rios e por 10,8 a erosão do solo, constatou em 1989 um estudo de Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Isso significa que metade da chuva que cai em pastagens vai direto para os rios, aumentando as cheias e a sedimentação. Essa perda diminui em proporção à presença de vegetação mais alta e de raízes profundas, segundo medições de Fearnside em terrenos com declive de 20% em Ouro Preto D'Oeste, município de Rondônia.

Cultivar a terra "é pior" do que as pastagens, porque "limpa todo o solo", eliminando inclusive a erva que alimenta o gado e retém um pouco de água, apontou Dourojeanni. Mas a pecuária compacta o solo pelo pisotear do gado, acelerando o escorrimento, acrescentou esse biólogo de origem norte-americana e nacionalidade brasileira que pesquisa a Amazônia desde 1974.

Em sua opinião, o desmatamento "contribui pouco para as inundações bolivianas no momento, porque o grosso das florestas continua de pé". Isso também afirma o especialista em hidrologia boliviano Jorge Molina, da Universidade Mayor de San Andrés. A Bolívia está entre os 12 países de maior desmatamento atual, revela um estudo de 15 centros de pesquisa divulgado pela revista norte-americana Science, em novembro. O país perdeu 29.867 quilômetros quadrados de florestas entre 2000 e 2012, indicam imagens obtidas via satélite e ferramentas do Google.

A pecuária é um grande fator e se expandiu principalmente em Beni, fronteiriço com Rondônia. Ali teriam morrido 290 mil bovinos entre janeiro e fevereiro, segundo a federação local de pecuaristas. A avalanche hídrica ameaça inclusive a eficiência das usinas hidrelétricas. Santo Antônio teve que interromper sua geração em fevereiro. Isso explica o interesse brasileiro em construir outras centrais bacia acima, "mais para regular o fluxo do Madeira do que pela energia", destacou Dourojeanni.

Os planos incluem, além de um projeto fronteiriço com a Bolívia e a central Cachuela Esperanza no baixo Beni boliviano, outra hidrelétrica peruana no distante rio Inambari, afluente do Madre de Dios, detalhou Dourojeanni. Os planos de Inambari e de outras quatro idrelétricas peruanas, cuja concessão foram ganhas por empresas brasileiras, foram suspensos em 2011
pela resistência popular à sua construção.

As águas violentas do Madeira romperam as ensecadeiras de barro da Usina de Jirau, inundando o seu canteiro de obras e comprometendo a programação prevista para geração de eletricidade. Na hidrelétrica de Santo Antônio, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) ordenou que as turbinas fossem desligadas, a fim de reduzir as inundações no percurso da barragem. Esta situação de emergência diminui o abastecimento de energia elétrica gerado pela barragem de Santo Antônio, agravando ainda mais a escassez de energia no país. Ambos cenários demonstram a fragilidade do modelo energético do Brasil que depende de usinas hidrelétricas. Ai nos perguntamos: o que poderia levar os responsáveis pelo planejamento energético do país a quererem construir mais barragens?

Líderes brasileiros, como Marcio Santilli, do Instituto Socioambiental (ISA), estão pedindo a renúncia do ministro da Energia, Edison Lobão, devido a essa crise, mas infelizmente a renúncia desse político provavelmente não mudaria o pensamento predominante do setor energético brasileiro. Essa não é uma medida simplesmente teimosa ou irresponsável: ela é calculada e corrupta, procurando manter o status quo, transferindo grande quantidade de verba pública para certos interesses e setores das áreas de construção civil, energia e mineração.

No Brasil, o que estamos testemunhando – onde secas e inundações estão mudando as condições climáticas – é exatamente o mesmo tipo de fenômeno que os cientistas previram que irá ocorrer com mais frequência nos próximos anos. Enquanto parece impossível reformar o setor de energia, mesmo com a crise climática da situação atual, a pressão pública poderá forçar uma mudança de rumos. Somente então o passivo do Brasil com as comunidades afetadas pelas usinas, assim como os rios dos quais elas dependem, vão estar aparecer nesse caminho tortuoso da agenda hidroelétrica.

Fonte: http://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-milanez/as-aguas-baixam-mas-o-estrago-do-setor-hidreletrico-permanece-2161.html