sexta-feira, 18 de abril de 2014

Os Bons matam Jesus - por Júlio Lázaro Torma*

"Com Jesus crucificaram dois ladrões, um á sua direita e outro a sua esquerda" (Mt. 27,38)

Estamos vivendo o grande Mistério de Amor, onde um Deus que por amor, assumiu a nossa condição humana e se tornou um de nós. Na pessoa de Jesus de Nazaré e por nós deu a sua própria vida a onde nos tornamos libertados de todas as escravidões pois "é para a liberdade que cristo nos libertou" (Gl 5,1).

O dia de hoje não é um feriadão, um feriado a mais no calendário, dia de se empanturrar com peixes ou frutos do mar em belos banquetes. Ou assistir a um espetáculo da Paixão, como se fosse um show ou a encenação de algo passado ou de mais um fato histórico que aconteceu na história da humanidade.

Quando fores ao Ato da Paixão e a Via Sacra, falais vou a Jerusalém, vou ao caminho do Calvário, ao monte Calvário viver o mistério da paixão,a dor e a paixão de Jesus Cristo, que sofreu por cada um de nós.Pois nele que não tinha beleza, que estava "tão desfigurado estava que havia perdido a aparência humana" (Is 52,14). E tomou sobre "si as nossas enfermidades, e carregou os nossos sofrimentos" (Is 53,4).

Olhamos para Jesus Crucificado dentro de nossas Igrejas e casas, pensamos que Jesus sempre esteve sobre o altar, que homens maus, os criminosos, as pessoas de má índole o matou.

Será que foram os considerados maus que mataram Jesus na cruz?, Nos Evangelhos vemos que ele estava cercado de pessoas de má índole, os desprezados da sociedade, os pecadores, prostitutas, cobradores de impostos (Mt 9,10-13; Lc 5,30). Enquanto os bons, os honestos, piedosos, as pessoas honradas da sociedade de seu tempo, o desprezavam e desejavam mata-lo a todo o custo desde o inicio de seu nascimento.

Jesus foi morto e condenado como um perigoso bandido, como alguém que ameaçava a integridade física da sociedade de seu tempo. Sofrendo um julgamento injusto e forjado, contraditório onde os seus acusadores se contradiziam entre si.

Se ele não fosse perigoso e vivesse como os doutores da lei queriam ele teria morrido na cama, desastre de camelo ou caído de alguma torre em construção.

Mas morreu na pior das mortes como um perigoso deliquênte, como um preso político e um amaldiçoado.

"Era desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos, como aqueles, diante dos quais se cobre o rosto, era amaldiçoado e não fazíamos caso dele" (Is 53,3).

Jesus foi condenado pela opinião pública de seu tempo induzidos pelas autoridades políticas e religiosas, que não queriam perder os seus privilégios sobre o povo. Ao mesmo tempo em que estavam incomodados pelas atitudes de Jesus que veio para as "ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mt 10,6), as prostitutas, pecadores, publicanos, doentes,pobres, gente desprezadas por não seguirem as leis e os preceitos religiosos em que deveriam seguir as pessoas de "bem".

Olhando a multidão diante do Pretório quem somos? Quem escolheríamos "Barrabás", um criminoso confesso ou Jesus de Nazaré,o "CRISTO", o autor da vida?

Diríamos Jesus de Nazaré, mas será que escolheríamos mesmo? ou gritaríamos "crucifica-o" ou "Leva pra casa!", e o trataríamos como um criminoso delinquente e debocharíamos ao vê-lo carregar a cruz e daríamos empurrões, socos, ponta pés para velo caído no chão?

Quantas vezes nos esquecemos que somos discípulos de um preso, condenado a morte injustamente, que viveu como pobre, morreu como pobre com muitos querendo sua pena de morte.

Hoje muitos que falam que são cristãos defendem a pena de morte, redução da maioridade penal, o extermínio e a higienização da sociedade, com o linchamento, com a morte dos pobres que são vítimas e usados para matar outros pobres como eles.

E saem para defender gente rica, políticos quando estes cometem crimes que brandam os céus. Quero aqui escrever o que me mandou uma senhora, me criticando por defender os pobres, presidiários no dia de Natal de 2013: "Comparar Jesus com presidiários que merecem pena de morte é até heresia,prá não dizer outra coisa".

Quem assim pensa não conhece verdadeiramente a Palavra de Jesus que no alto do Calvário, morreu entre dois ladrões, dois condenados a morte,pobres na periferia da capital, do mundo, vítimas dos considerados bons, honestos, santos e justos.

Um cristão não deve pactuar com as estruturas de morte e que geram morte, causará morte ao ser humano.Onde pessoas inocentes vão acabar sofrendo e sendo mortas. A violência de onde ela vier nunca será a solução para resolver os problemas de nossa sociedade.

Nós devemos denunciar toda a prática de injustiça cometida contra qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo e nem ser convenientes com as práticas de linchamento físico ou moral com que sofre as pessoas.

Nós matamos Jesus Cristo ainda hoje, como nos escreve há comédia de Félix Lope de Vega. FUENTE OVEJUNA, onde falam os habitantes; "Fuente Ovejuna, senhor". "Todos e ninguém". Todos nós o matamos, ao mesmo tempo não o matamos.

Ficamos incentos da responsabilidade diante da dor e do sofrimento de milhares de irmãos nossos que são mortos injustamente vitimas da violência e jogados na marginalização e na exclusão social que persiste em nossa sociedade.

Falamos que somos cristãos mas apoiemos pessoas que não tem boa índole, que sobre a aparência de boas pessoas, justas, moralistas envenenam, as mentes e os corações como fez as autoridades políticas e religiosas do Templo.

Que neste dia em que lembramos e vivemos o Maior gesto de Amor de um Deus que foi nos dar a sua própria vida para nos libertar de nossos pecados, da escravidão que nos oprimia e nos desuniu.

Que nós possamos ver em cada irmão que sofre o outro eu, a imagem de Jesus que sofre injustamente e que não fazemos nada para defende-lo. (Jo 18, 1-19,42)
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* Membro do Colégiado da Pastoral Operária Nacional