sexta-feira, 15 de agosto de 2014

General Cerqueira confirma execuções pelo Exército.


A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou nesta semana trecho do depoimento do general Nilton de Albuquerque Cerqueira em que ele afirma que “prender não era opção” na Guerrilha do Araguaia. Assim, a conclusão da CNV é que a fala do general é uma confirmação de que o Exército fez execuções durante o conflito, assassinando integrantes do movimento depois que eles já haviam se entregado, estavam presos, desarmados e sob a guarda do Estado.

O general voltou recentemente à comissão mas ficou calado, negou-se a responder às perguntas que lhe foram feitas. À saída, limitou-se a dizer que acha um absurdo que ainda se investigue fatos ocorridos 30 anos atrás. Sua confirmação de execuções, apresentada ontem, é de depoimento anterior dele, dado à CNV em novembro de 2013.

Perguntado, então, se havia uma ordem específica no Exército para eliminar ou prender os guerrilheiros, respondeu: . “Prender você não põe como opção (…) Se a ameaça vem do bandido que está lá recebendo ordens de São Paulo, ele vai morrer. Se ele não atirar, ele morre”.

Geisel confirmou a seu futuro ministro do Exército a política de execuções

O que o general Nilton Cerqueira diz é fato. Por tudo o que já foi apurado, no combate à Guerrilha do Araguaia o Exército não traçou como tática efetuar prisões dos guerrilheiros, eliminou-os mesmo depois de presos, rendidos, desarmados e sob sua responsabilidade como representante do Estado. Mas, o general Cerqueira não disse o que interessa: que as execuções foram decisão tomada pelo governo, pela Presidência da República, pelos ministros militares da época (1ª metade dos anos 70), que respondem – ou deveriam responder – pelos crimes praticados.

O que Cerqueira não confirmou, a CNV já havia apurado e concluído: a política de tortura, desaparecimento de corpos de vítimas do regime, assassinatos e outros crimes cometidos pelos agentes da repressão era uma política de Estado, traçada pelo governo ditatorial, emanada dos mais altos escalões e comandos, com conhecimento e aprovação do comando em chefe das Forças Armadas, a Presidência da República, dos generais ditadores.

O que o general Nilton Cerqueira não disse textualmente, está confirmado na série de quatro livros sobre a ditadura militar brasileira escrita pelo jornalista Elio Gaspari e publicada a partir de 1984: A Ditadura Envergonhada; A Ditadura Escancarada; A Ditadura Encurralada; e A Ditadura Derrotada.

Considerada a mais completa pesquisa já publicada sobre o período ditatorial (1964-1985), Elio afirma em um destes livros que o general-presidente Ernesto Geisel (1975-1979), quando se preparava para assumir o cargo, num encontro com seu futuro ministro do Exército, general Vicente de Paula Dale Coutinho, concordou e disse-lhe, num ponto da conversa, que não tinha como derrotar os militantes da esquerda que resistiam a ditadura a não ser matando-os.