terça-feira, 15 de abril de 2014

Não à Justiça pelas próprias mãos! - por Júlio Lázaro Torma*

"Caia sobre nós o seu sangue e sobre nossos filhos(Mt. 27,25)

Estamos na Semana Santa, onde vivenciamos o sofrimento de Jesus Cristo, a sua prisão, tortura, condenação judicial injusta, crucificação e morte.

Ao mesmo tempo é um momento propício para refletirmos sobre as nossas atitudes em relação ao outro, aos mais pobres de nossa sociedade.

Tem se cada vez mais se difundido em nossa sociedade a cultura do linchamento, da lei do talião e de se "fazer a Justiça com as próprias mãos".

Onde diante da ausência do estado em coibir a violência normativa e a omissão do judiciário em julgar quem comete tais atos. Tem aparecido grupos de " justiceiros" e turbas fazendo justiça com as próprias mãos incentivadas por âncoras da mídia.

Desde que em horário nobre a repórter Rachel Sheherazade, apoiou e incentivou o linchamento de um menor morador de rua, tem acontecido no Brasil um linchamento por dia, onde a média era de 4 por semanas.

Isso demostra que a sociedade brasileira está saindo do controle, como o caso de um menino de 17 anos, o Alailton Ferreira, negro que foi linchado por moradores de uma bairro popular do município de Serra ( ES), acusado de estupro e roubo de uma moto.

Tais grupos tem praticado uma lavagem higienista da sociedade expulsando e matando pessoas que eles consideram indigestas para a sociedade.

As vítimas tem classe social, rosto e sexo.São em sua maioria pobres, negros e do sexo masculino, moradores de áreas vulneráveis em que muitas vezes o próprio poder público os abandonou a própria sorte, sem lhes garantir políticas públicas de inclusão social.Onde no Brasil a polícia brasileira mata três vezes mais negros do que brancos.

Enquanto isso pessoas inocentes estão sendo vítimas da cultura do linchamento difundido pela mídia e pelas classes dominantes que sempre mandaram neste país.

Onde os pobres são vítimas e também usados para derramar o sangue de gente pobres como eles e manchando as suas mãos de sangue inocente.

Nós não podemos ser fuenteovejuna, diante da escalada de violência e dos linchamentos que vem acontecendo em nossa sociedade. O menino Alailton era um de nós, um ser humano, de nossas periferias, a crueldade em que foi vítima atinge toda a sociedade. Nenhum ser humano deve aceitar que se faça (in) justiça com as próprias mãos, onde ninguém de nós está imune de ser vítima de um linchamento em via pública.

Como falava o Papa Francisco na sua visita ao Rio de Janeiro na Jornada Mundial da Juventude em julho de 2013:
"Nenhum esforço de "pacificação" será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa á margem, que abandona na periferia de si mesma. Uma sociedade assim simplesmente empobrece a si mesma; antes, perde algo de essencial para si mesma".

Acompanhamos com dor, a ansiedade e angústia das pessoas vítimas da violência em seus reclamos aos distintos poderes do estado, para a construção de uma segurança inclusiva que aplique justiça, respeitando e garantindo sempre direitos a todas as pessoas.

E declaremos que não se combate violência com violência, o que gera mais violência e que não se deve fazer justiça com as próprias mãos.

* Júlio Lázaro Torma é membro da Pastoral Operária.