sábado, 14 de junho de 2014

Conceição Tavares: “Resistir para avançar. O resto é arrocho”.


Sob o título “Resistir para Avançar”, o portal Carta Maior nos brinda nesta semana com mais uma entrevista imperdível da decana dos nossos economistas, a professora Maria da Conceição Tavares, uma das principais analistas da área em nosso país. É uma análise sobre as duas visões para o Brasil que se colocam diante do eleitor em outubro deste ano, feita com a visão apaixonada e o fervor de sempre que marca tudo em que Maria da Conceição se atira.

Uma destas visões, valoriza os avanços dos últimos 12 anos e é defendida por aqueles que não consideram o caminho concluído, mas em processo de construção. A outra, encampada pelo conservadorismo o mais ortodoxo e pela mídia, que incensa o Brasil do caos, dia sim e no outro também, aposta em soluções radicais, sempre e cada vez mais à direita.

A primeira, aponta a economista, é a mais adequada, é a via dos “avanços sociais, emprego, salário e crédito para manter a atividade –não para puxar, me entenda, mas para manter o nível de atividade”. É a mais conveniente para o Brasil, a que nós é mais adequada, dada a situação, segundo Conceição, “muito delicada por conta do encavalamento de gargalos econômicos e da disputa eleitoral. Mas o fato é que o projeto em curso é o mais adequado à sociedade brasileira”.

Já a segunda, é sintetizada – e rechaçada – por Conceição usando em parte palavras deles do outro lado: a outra visão é “começar de novo”, tirar o país das mãos do “populismo petista”, para entregá-lo aos mercados e suas receitas de “contração expansiva”, combinando arrocho salarial e fiscal com fastígio dos fluxos de capital sem lei.

Doze anos de estirão

Para justificar a manutenção da rota atual ela justifica: “São doze anos de estirão por essa via. Agora é mante-la, enquanto se avança no investimento em infraestrutura, que vai puxar o novo ciclo. É o que tem que ser feito. E está sendo feito. Não há muito mais o que inventar, essas coisas mirabolantes que se puxa da cabeça – como se a crise fosse uma coisa mental e não uma luta social – não fazem sentido e arriscam por tudo a perder”.

Conceição Tavares explica, ainda, que estamos diante da “comprovação empírica do fracasso neoliberal, mas são eles que persistem e dão as cartas no xadrez global. Vivemos um colapso do neoliberalismo sob o tacão dos neoliberais: a pasmaceira política aqui (no Brasil) é reflexo desse paradoxo”.

A economista também comenta as “soluções redentoras”: “uns querem milagre social, outros arrocho fiscal. E ambos estão desastradamente equivocados!” Segundo ela “Lula está certo – em geral ele está certo. É uma pessoa sensata, ao contrário de muitos economistas visionários que estão à procura de um novo modelo. Ele sabe que não se pode perder uma conquista histórica”.

”Soluções redentoras”

Ela faz questão de acentuar que “a inflação de alimentos tem origem na seca, não na exacerbação da demanda. O custo da energia, idem. Do lado externo, o dólar baixo que desestabiliza o setor externo da economia é um reflexo da fraca recuperação mundial”. E questiona: “vamos negociar um novo modelo com o clima ou com o FED?”

“Vamos fazer um arrocho fiscal? Arrocho quem faz são eles. Eu não recomendo mexer em modelo algum. O que devemos é sustentar o nível de atividade e avançar no investimento em infraestrutura , com forte aporte estatal”, pergunta, pondera e aconselha.

Além dessa entrevista da mestra, a Equipe do Blog não pode deixar de recomendar, também, a leitura de “A era das distopias”, artigo de Maria da Conceição publicado na revista Insight Inteligência, no qual ela diz constatar que “as pessoas estão perdidas, não sabem como se guiar do ponto de vista político e econômico. E com isso a história parece que não se move, o futuro fica ilegível, amorfo”.

“As pessoas estão perdidas”

Em A era das distopias, Conceição traça a situação de impotência em que o mundo se encontra e o fato de que “ninguém sabe como reagir se não há conceito e pensamento, organizados a partir de uma utopia. Diga-me um autor relevante que não esteja pensando dessa maneira, prostrado pela falta de alternativas? Não há ousadia em nada, pelo menos do ponto de vista do pensar”.

Mas ela reforça, sobre o Brasil: “Na verdade, se o PIB é ‘pibinho’ ou não, qual o problema? Vai ser 2%, 3% ou 4%? O problema é ter emprego. Para mim, os critérios clássicos são emprego, salário mínimo e ascensão social das bases”. E reforça: “Nosso andamento é diferente dos demais. Nós fizemos o nosso Estado de bem-estar, formalmente, na Constituição de 1988. Tratava-se de uma construção política bonita a ser realizada. E hoje, a gente consegue, no governo do PT, fazer políticas sociais avançadas”.

“Está diminuindo o número de miseráveis, com o consequente aumento da base da sociedade organizada. Estava tudo tão atrasado que dava para fazer. O salário mínimo multiplicou algumas vezes. As taxas de emprego nunca foram tão altas. A massa dos pobres está sumindo devagarinho. A ideia de uma malta ascendente, de que a desigualdade está diminuindo, é fato, todo mundo sabe. Não há como esconder. Foi deliberado”.