terça-feira, 17 de junho de 2014

O LINHÃO E SUAS MAZELAS I - Por Egydio Schwade*


Participei na semana passada da 1ª. audiência sobre a Linha de Transmissão, Manaus-Boa Vista, na Câmara Municipal de Presidente Figueiredo. Fiz alguns questionamentos ao empreendimento, em especial a maneira como esses grandes empreendimentos são executados. Para uma obra já pré-aprovada de pouco valem questionamentos.

A Linha de Transmissão (LT), Manaus-Boa Vista, ora em “discussão”, integra o processo de espoliação da Amazônia que já vem desde os idos coloniais. Admira que até hoje nenhum mandante político da região se tenha dado conta disso e tomado alguma providencia no sentido de criar instrumentos que realmente favoreçam a gente radicada na Amazônia.

Desde os anos 60, tempo de Ditadura Militar, venho acompanhando os grandes empreendimentos na Amazônia: Rodovias construídas como se todas adentrassem “vazios demográficos”, hidrelétricas desrespeitando terras e aldeias indígenas, instalação de mineradoras, madeireiras, agronegócio com transferência de milhões de hectares de terras para latifundiários nacionais e estrangeiros. Basta citar a “grilagem paulista”. Deslocando ou matando populações indigenas e ribeirinhas. Só neste município de Presidente Figueiredo tem 266 títulos “paulistas” de 3.000 ha. cada lote.

Mesmo questionados pelo MPF, ONGs ambientalistas, nacionais e internacionais, essas obras foram impostas à região com ou sem consulta popular a índios e não-indios interessados. Quando consultas houve, essas não tiveram outro objetivo senão o de dar uma aparência de legitimidade a instrumentos que visam arruinar ou levar para fora da Amazônia recursos que deveriam primeiro servir à população regional. Reclamações e questionamentos por parte do MPF e ONGs nunca foram tomadas em conta. O mesmo vai ocorrer hoje com o Linhão Manaus-Boa Vista.

Criaram-se instrumentos para chegar aos rios e florestas e espolia-los da madeira, dos peixes e do seixo. Criaram-se instrumentos para retirar a população dos rios e florestas. Verdadeiras “veias abertas” para mineradoras, madeireiras, empresas de pesca, indústrias montadoras, onde o homem da região abdica do que é seu para se integrar a leva de escravos de um sistema internacional, montado para humilhá-lo e lhe impor até o alimento, sobre a fartura natural que sempre o saciou.

A LT não tem outro destino senão este: servir de veio para indefinidamente prosseguir e ampliar o saque dos recursos naturais da região, agora enveredando pelos recursos energéticos.

* Egydio Schwade é Indigenista e Coordenador do Comitê da Verdade do Amazonas.