segunda-feira, 9 de junho de 2014

Manifesto pela Verdade: heroi é o povo! - por Maria de Nazaré Tavares Zenaide*


Década de 1960. O povo da América Latina se ergue num só grito. Povo batalhador, que nunca baixou a cabeça para as injustiças levantava-se agora de mãos dadas, e por isso mesmo ameaçavam. A classe dominante disse, nas entrelinhas, que o perigo era tomarmos as rédeas de nossos destinos em nossas mãos, e agiram: uma série de golpes se deu em todo o continente, destruindo sonhos, vidas, tentando matar nossa esperança num mundo melhor.

No Brasil, o panorama não era diferente. Parecia que o réveillon de 1964 acontecia em 31 de março. Naquele momento, grandes senhores de terra, executivos de multinacionais, antigos políticos de direita, grandes industriais e banqueiros abriram suas garrafas de champanhe para comemorar a vitória do Golpe Militar. No entanto, lá fora a noite era escura e silenciosa. De repente, soldados chegaram vasculhando os casebres. Procuravam os “inimigos da pátria”. As pessoas simples tinham medo. Precisavam dormir cedo porque no outro dia tinham que trabalhar. Mas o olho continuava aberto, só a boca permanecia fechada.

Seguiram-se a esse episódio sombrio perseguições, torturas, mortes, silêncios forçados. A ditadura militar foi uma época de negação dos Direitos Humanos e de supressão da cidadania. A vida das/os militantes tornava-se cada vez mais difícil: não bastasse todo o aparelho estatal a lhes perseguir, o apoio da mídia por meio do convencimento, as empresas brasileiras que pagavam a peso de ouro pela sua caça e a colaboração decisiva dos Estados Unidos com a “Escola das Américas” no treinamento e localização das/os lutadoras/es pela democracia, ainda tinham que conviver com a distância da família na clandestinidade, a incerteza sobre o paradeiro das/os companheiras/os e, quando davam menos sorte, a prisão, a tortura ou a morte.

Era como Drummond dizia: “Este é tempo de divisas / Tempo de gente cortada / É tempo de silêncio, / De boca gelada e murmúrio / Palavra indireta, aviso na esquina." A classe dominante, entretanto, não se contentou em matar apenas fisicamente: teria que matar a alma de nosso povo. Para dar uma aparência de que estava no caminho certo, foi homenageada. Para todo mundo pensar que eram homens de bem, apareceram elegantes na mídia – esta não dava gritos tão indignados assim contra esta opressão, porque, cá entre nós, tinha lá suas benesses...

Veio então a Anistia às avessas, em um último golpe de crueldade: por um lado, o bom senso de deixar patriotas voltarem para seu país ou serem soltos dos porões da ditadura; por outro, um passe livre para torturadores terem uma vida tranquila, sem o risco de serem incomodados. Estavam anistiados também.

Mas a luta não acabou! O povo continua firme, decidido e batalhador. Volta às ruas. O que se quer, agora, é que as coisas sejam colocadas no seu devido lugar: quem lutou pelo povo, que seja homenageada/o; quem quis um mundo melhor, que seja lembrada/o; e quem colaborou com tamanha crueldade institucionalizada, que seja assinalada/o, para que o povo não se esqueça, para que nunca mais aconteça!

Entendemos, portanto, como importante a mudança do nome do “Diretório Acadêmico Tarcísio Burity”. Esta homenagem concedida foi fruto do calor da hora gerado pelo falecimento do ex-professor do curso de Direito da UFPB. Contudo, este senhor governou a Paraíba por indicação do regime de exceção, através do general Ernesto Geisel, perseguindo os alunos da Faculdade de Direito e entregando-os às forças repressivas.

Vemos como uma importante resposta, assim como acontece por ruas e praças de todo o país, resgatar a história e homenagear aqueles/as que na luta pela democracia brasileira demonstraram sua força e combateram o regime militar. Na Paraíba, a luta empenhada pelas mulheres foi primordial para a conquista de direitos, em meio a uma trincheira de advogados, as jovem Ophelia Amorim se destocou nos tribunais paraibanos na defesa dos trabalhadores rurais, através das Ligas Camponesas, contudo em virtude da sua atuação foi presa pelo regime militar e compelida a responder processos. Frente às diversas perseguições políticas, teve que se refugiar em São Paulo, onde atua enquanto uma das advogadas mais respeitadas da Ordem dos/as Advogados/as do Brasil – OAB.

Desta feita, como importante passo pela concretização da justiça em nosso país e em homenagem a todas as mulheres que lutaram pela democracia e advogados/as que assumiram um papel primordial nos tribunais e púlpitos desse país na defesa, ainda que, de um país melhor para todos/as é que propomos a alteração do seu nome para “Centro Acadêmico Ophelia Amorim” para que esta dívida histórica com todas/os aquelas/es que lutaram contra as forças opressoras seja minimamente sanada, devendo ser lembradas/os como exemplos a serem seguidos e como heróis e heroínas na construção da nossa história. Para isso, pedimos seu apoio.

* Maria de Nazaré Tavares Zenaide é Pscóloga, Profa. Dra. do Departamento de Serviço Social - CCHLA - UFPB; Vice-Coordenadora do Núcleo de Cidadania e Direitos Humanos - CCHLA - UFPB; e Coordenadora do Comite Nacional de Educação em Direitos Humanos - SDH.