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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Vigia da Casa da Morte é detido pela PF e identificado


‘Camarão’ foi reconhecido por sobrevivente, mas negou saber de torturas em Petrópolis.

Depois de passar mais de quatro décadas escondido sob a alcunha de “Camarão”, o carcereiro da Casa da Morte de Petrópolis, um dos mais bárbaros centros de tortura do regime militar brasileiro, finalmente ganha nome. “Camarão” é o soldado reformado do Exército Antônio Waneir Pinheiro Lima, de 71 anos. No fim de semana, ele foi localizado no interior do Ceará, onde estava escondido, após dois meses de buscas patrocinadas pelo “Justiça de Transição”, grupo de trabalho do Ministério Público Federal responsável pela investigação dos crimes praticados nos porões da ditadura (1964-1985). Conduzido à força para a Polícia Federal em Fortaleza, ele reconheceu ter atuado como “vigia da casa”, mas disse desconhecer o que se passava dentro do imóvel.

A existência de “Camarão” foi relevada por Inês Etienne Romeu, única presa política que conseguiu sair com vida da casa. Em 1979, ela divulgou um depoimento sobre sua passagem pelo local. Militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), Inês ficou na casa de Petrópolis entre maio e setembro de 1971. No período, sofreu torturas físicas e psicológicas e, de acordo com o depoimento, foi “estuprada duas vezes por ‘Camarão’, obrigada a limpar a cozinha completamente nua, ouvindo gracejos e obscenidades, os mais grosseiros”.

A Casa da Morte, na época propriedade do alemão Mario Lodders, foi emprestada ao Centro de Informações do Exército (CIE) para funcionar como um cárcere clandestino destinado a presos políticos especiais (geralmente, comandantes ou chefes de grupos de fogo de organizações da esquerda armada). Cerca de 20 pessoas teriam sido executadas no local, mas não há números oficiais sobre isso. Por “Camarão”, Inês descobriu que uma dessas vítimas seria Carlos Alberto Soares de Freitas, o “Breno”, comandante da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares) e da VPR.

Inês só conseguiu sair com vida da casa porque prometera aos torturadores que se tornaria uma infiltrada. Mas ela não apenas quebrou o acordo como conseguiu memorizar nomes, detalhes e até o telefone do imóvel, revelados em 1979, quando ela julgou-se livre dos riscos. “Camarão” foi descrito por Inês como baixo, claro, natural do Ceará. “Sua família reside em Fortaleza. Seu nome real é Wantuir ou Wantuil. É do Exército e fez parte da segurança pessoal do presidente João Goulart”, narrou ela.

A localização da Casa da Morte foi descoberta em 1981, a partir do número de telefone memorizado por Inês. Em entrevista ao GLOBO, em 2012, o tenente-coronel da reserva Paulo Malhães, o agente “Pablo” do CIE, confessou ter sido o responsável pela implantação da casa, que preferiu chamar de “centro de conveniência”, criada com o objetivo de arregimentar infiltrados e de “virar o preso”. “Camarão”, segundo Malhães, foi transferido da Brigada Paraquedista para o CIE em 1969, quando o centro fez um recrutamento de agentes nessa tropa de elite do Exército.

Antes de ser assassinado em abril, Malhães admitiu em entrevistas e depoimentos que o CIE matava e desaparecida com os corpos de presos políticos. Para evitar a identificação, os torturadores, segundo disse, arrancavam os dedos e as arcadas dentárias de suas vítimas. O sargento Marival Chaves, em entrevista à revista “Veja” em 1992, revelou que as vítimas da casa, depois de mortas, eram esquartejadas.

PARAQUEDISTA QUE CUIDAVA DO CHIQUEIRO

Antônio Waneir, chamado de “Camarão” pelos colegas de farda pelo tom avermelhado da pele, estava na brigada desde 1963. Malhães contou que, na ocasião do recrutamento para a casa, o soldado cuidava do chiqueiro da unidade, pois tinha se envolvido com bebida e estava impedido de saltar de paraquedas. “Camarão” foi encarregado de guiar os agentes do CIE pelas instalações da brigada, servir café e outras tarefas. Pela atenção dedicada aos visitantes, acabou conquistando a simpatia de Malhães.

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Como vigia da casa, “Camarão” era o militar que mais tempo permanecia no centro clandestino. Os oficiais do CIE, cujo escritório ficava no Palácio Duque de Caxias, sede do Exército no Rio, só subiam a serra quando tinham em mãos um preso considerado de alta prioridade. Inês, que há poucos dias o reconheceu pela foto acima, disse que, quando os oficiais estavam ausentes, “a casa foi muitas vezes visitada por prostitutas, quando eram realizadas festas das quais participavam ‘Pardal’, ‘Camarão’, ‘Raul’, ‘Marcelo’ e ‘Alan’ (torturadores ainda não identificados)”.

Com o fim do regime, em 1985, “Camarão” conseguiu, com a ajuda de Malhães, emprego como segurança de uma empresa de ônibus em Nilópolis (Baixada Fluminense). Desde então, só saiu das sombras em 2004, quando foi preso em Araruama, na Região dos Lagos, após discutir e dar quatro tiros (dois no tórax, um no punho e outro na coxa) no músico Lúcio Francisco do Nascimento, do grupo Molejo. Chegou a ficar um mês preso, mas conseguiu a absolvição do Tribunal do Júri da cidade.

Em agosto, ao saber que estava na mira de jornalistas, do Ministério Público Federal e da Comissão Estadual da Verdade, abandonou a casa em que morava em Araruama. Ele foi localizado pela PF em Tauá (CE) e levado a Fortaleza no fim de semana. Depois de depor, foi liberado.
 

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