terça-feira, 2 de julho de 2013

A VIDA É MELODIA - Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

A vida é melodia. Melodia de notas múltiplas e complementares. Basta “ouvir” o ritmo e a voz inaudível dos astros e das galáxias em suas órbitas, movimentando-se há bilhões de anos; ou sentir o brilho pontual e infalível do sol, da luz, das estrelas ou a rota dos planetas. Contemplar a infinitude dos oceanos, do universo, da luz e da escuridão, como também a altura dos picos mais elevados, brancos de neve, ou as planíceis viçosas e verdejantes. “Ouvir” o som das florestas que se renovam continua e periodicamente nos montes e vales, as sementes que geram novas plantas, os botões que se abrem em flor e se convertem em futos. Ouvir (agora sem aspas) a alegria das crianças quando jogam, pulam e brincam, o canto dos pássaros em suas acrobacias matutinas ou vespertinas, o murmúrio das águas que rolam sobre as pedras dos rios, o assobio do vento em meio às árvores e montanhas. Cada criatura, por maior ou menor que seja, orgânica ou inorgânica, tem seu lugar e sua voz única na colossal orquestra da criação.

Do ponto de vista humano, porém, a melodia não vem somente de fora. Ela se faz ouvir nas entranhas mais profundas de cada ser humano que se abre à própria voz interior. Esta, quando em sintonia com o ritmo universal da criação, se harmoniza com o toque de toda a gigantesca orquestra. O pulsar do coração e os “gemidos do espírito” constituem a contribuição humana na grande sinfonia de toda a biodiversidade em festa. Nesta perspectiva, cada pessoa representa um instrumento único, com sua nota irrepetível e insubstituível. A melodia somente se torna perfeita quando cada instrumento toca em harmonia com os demais, conferindo significado ao conjunto de toda a orquestra.

Infelizmente, ao longo da história, inúmeros ruídos tomam o lugar das notas melodiosas. Não raro a sinfonia converte-se em cacofonia. Esta se manifesta em dupla dimensão: por um lado, os ruídos que nos chegam do exterior. Rumoes macro-ecológicos (poluição do meio ambiente, agressão à natureza, aquecimento global, desertificação...), socioenonômicos (concentração e exclusão social, injustiça e desigualdade...) e político-culturais (tirania, corrupção, discriminação, preconceito, xenofobia...). Daí as tensões, conflitos, guerra e todo tipo de violência, inflingida tanto à natueza quando ao outro, diferente, estrangeiro. 

Por outro lado, existem os ruídos que vêm de dentro e que tumultuam o coração e a alma humana. Desejos e paixões, medos e dúvidas, ódio e rancor, inveja e vingança, tristeza e angústia, instintos e impulsos – sentimentos e emoções que envenenam não somente o bem estar interior de cada pessoa, mas também as relações interpessoais e comunitárias, sociais e políticas, bem como o intercâmbio cultural entre povos, raças e nações. Ao invés de um diáogo hamonioso sobre os valores, que poderia enriquecer reciprocamente a todos, instala-se o monólogo de surdos, onde cada qual pretende impor sua própria ideologia. O relacionamento consigo mesmo, com Deus e com os outros, em lugar de musical, detorna-se rumoroso e agressivo.

Somente o silêncio, a escuta e a reflexão podem reconverter a cacofonia em nova sinfonia. A meditação, ao abrir-sesimultaneamente ao canto interior de si mesmo e à melodia do universo, introduz uma espécie de alquimia que transforma os ruídos em notas musicais. Não se trata de eliminar os ruídos da existência cotidiana e da história. Eles fazem parte de nossa condição humana e nos acompanharão do berço ao túmulo. O verdadeiro desafio é permitir que o Espírito de Deus posa revestir tais ruídos com sua graça, isto é, abrir-se à conversão e à sua ação purificadora sobre o pecado e o rumor. Eis o milagre da oração e da contemplação: mesmo em meio a uma sociedade apelativa, permissiva e ruidosa, sentir a melodia profunda e oculta da vida em plenitude. Deixar que Deus toque as cordas mais íntimas da alma, redescobrindo o som mágico que embala todos os seres no amor da cariação.

Semelhante transfiguração dos ruídos em novas notas melodiosas, da cacofonia em nova sinfonia, pressupõe a “oração nua”. Não apenas a oração litúrgica, comunitária ou devocional, respectivamente acompanhadas de cantos, salmodias ou fórmulas repetitivas. O que se requer é o encontro pessoal e único com Deus. Encontro que, por sua vez, exige a humildade e a coragem de chamar os ruídos pelo própiro nome, “pegar o touro pelos chifres”, digamos assim. Denominar é uma forma de conhecer e dominar, controlar e transformar. Com efeito, quando adquirimos consciência dos ruídos, internos ou externos que sejam, podemos melhor administrá-los com ajuda da graça de Deus.

Falar dos ruídos diante de Deus é uma forma de exorcizá-los, como nos ensina a própria psicanálise. Não porque Deus os desconheça, ao contrário, “Ele está mais próximo de nós que nós mesmos”, diria Santo Agostinho. Mas para que nós mesmos possamos, mais a fundo, ter conhecimento daquilo que nos impede de ouvir a melodia divina. A verdade é que os rumores e pecados jamais se calarão, porém, conhecendo-os e tomando-os nas próprias mãos, aprendemos a “ouvir”, apesar deles, a feliz sinfonia da vida. Os temores se convertem em alegria! Os próprios ruídos, sob o olhar misericordioso de Deus, se convertem em melodia, pois nos damos conta que “quando somos fracos é então que nos tornamos fortes”.

Sim, as feridas e cicatrizes da fragilidade humana abrem espaço para a ação do Espírito, o qual, irrompendo na história pessoal e coletiva, nos interpela à novidade de uma constante recriação. Espírito que nos desinstala, “derruba os poderosos de seus tronos”, abala e reduz a escombros toda e qualquer tirania, afinado os instrumentos para inusitadas formas musicais. A melodia da nova criação somente se faz sentir mediante as “dores de parto” de que nos fala o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos, capítulo 8. Numa palavra, a conversão dos ruídos em nova melodia pressupõe renúncia aos próprios instintos, projetos e paixões, escuta silenciosa da vontade de Deus, que é a música por excelência do Ser.