A VIDA É MELODIA - Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

A vida é melodia. Melodia de notas múltiplas e complementares. Basta “ouvir” o ritmo e a voz inaudível dos astros e das galáxias em suas órbitas, movimentando-se há bilhões de anos; ou sentir o brilho pontual e infalível do sol, da luz, das estrelas ou a rota dos planetas. Contemplar a infinitude dos oceanos, do universo, da luz e da escuridão, como também a altura dos picos mais elevados, brancos de neve, ou as planíceis viçosas e verdejantes. “Ouvir” o som das florestas que se renovam continua e periodicamente nos montes e vales, as sementes que geram novas plantas, os botões que se abrem em flor e se convertem em futos. Ouvir (agora sem aspas) a alegria das crianças quando jogam, pulam e brincam, o canto dos pássaros em suas acrobacias matutinas ou vespertinas, o murmúrio das águas que rolam sobre as pedras dos rios, o assobio do vento em meio às árvores e montanhas. Cada criatura, por maior ou menor que seja, orgânica ou inorgânica, tem seu lugar e sua voz única na colossal orquestra da criação.

Do ponto de vista humano, porém, a melodia não vem somente de fora. Ela se faz ouvir nas entranhas mais profundas de cada ser humano que se abre à própria voz interior. Esta, quando em sintonia com o ritmo universal da criação, se harmoniza com o toque de toda a gigantesca orquestra. O pulsar do coração e os “gemidos do espírito” constituem a contribuição humana na grande sinfonia de toda a biodiversidade em festa. Nesta perspectiva, cada pessoa representa um instrumento único, com sua nota irrepetível e insubstituível. A melodia somente se torna perfeita quando cada instrumento toca em harmonia com os demais, conferindo significado ao conjunto de toda a orquestra.

Infelizmente, ao longo da história, inúmeros ruídos tomam o lugar das notas melodiosas. Não raro a sinfonia converte-se em cacofonia. Esta se manifesta em dupla dimensão: por um lado, os ruídos que nos chegam do exterior. Rumoes macro-ecológicos (poluição do meio ambiente, agressão à natureza, aquecimento global, desertificação...), socioenonômicos (concentração e exclusão social, injustiça e desigualdade...) e político-culturais (tirania, corrupção, discriminação, preconceito, xenofobia...). Daí as tensões, conflitos, guerra e todo tipo de violência, inflingida tanto à natueza quando ao outro, diferente, estrangeiro. 

Por outro lado, existem os ruídos que vêm de dentro e que tumultuam o coração e a alma humana. Desejos e paixões, medos e dúvidas, ódio e rancor, inveja e vingança, tristeza e angústia, instintos e impulsos – sentimentos e emoções que envenenam não somente o bem estar interior de cada pessoa, mas também as relações interpessoais e comunitárias, sociais e políticas, bem como o intercâmbio cultural entre povos, raças e nações. Ao invés de um diáogo hamonioso sobre os valores, que poderia enriquecer reciprocamente a todos, instala-se o monólogo de surdos, onde cada qual pretende impor sua própria ideologia. O relacionamento consigo mesmo, com Deus e com os outros, em lugar de musical, detorna-se rumoroso e agressivo.

Somente o silêncio, a escuta e a reflexão podem reconverter a cacofonia em nova sinfonia. A meditação, ao abrir-sesimultaneamente ao canto interior de si mesmo e à melodia do universo, introduz uma espécie de alquimia que transforma os ruídos em notas musicais. Não se trata de eliminar os ruídos da existência cotidiana e da história. Eles fazem parte de nossa condição humana e nos acompanharão do berço ao túmulo. O verdadeiro desafio é permitir que o Espírito de Deus posa revestir tais ruídos com sua graça, isto é, abrir-se à conversão e à sua ação purificadora sobre o pecado e o rumor. Eis o milagre da oração e da contemplação: mesmo em meio a uma sociedade apelativa, permissiva e ruidosa, sentir a melodia profunda e oculta da vida em plenitude. Deixar que Deus toque as cordas mais íntimas da alma, redescobrindo o som mágico que embala todos os seres no amor da cariação.

Semelhante transfiguração dos ruídos em novas notas melodiosas, da cacofonia em nova sinfonia, pressupõe a “oração nua”. Não apenas a oração litúrgica, comunitária ou devocional, respectivamente acompanhadas de cantos, salmodias ou fórmulas repetitivas. O que se requer é o encontro pessoal e único com Deus. Encontro que, por sua vez, exige a humildade e a coragem de chamar os ruídos pelo própiro nome, “pegar o touro pelos chifres”, digamos assim. Denominar é uma forma de conhecer e dominar, controlar e transformar. Com efeito, quando adquirimos consciência dos ruídos, internos ou externos que sejam, podemos melhor administrá-los com ajuda da graça de Deus.

Falar dos ruídos diante de Deus é uma forma de exorcizá-los, como nos ensina a própria psicanálise. Não porque Deus os desconheça, ao contrário, “Ele está mais próximo de nós que nós mesmos”, diria Santo Agostinho. Mas para que nós mesmos possamos, mais a fundo, ter conhecimento daquilo que nos impede de ouvir a melodia divina. A verdade é que os rumores e pecados jamais se calarão, porém, conhecendo-os e tomando-os nas próprias mãos, aprendemos a “ouvir”, apesar deles, a feliz sinfonia da vida. Os temores se convertem em alegria! Os próprios ruídos, sob o olhar misericordioso de Deus, se convertem em melodia, pois nos damos conta que “quando somos fracos é então que nos tornamos fortes”.

Sim, as feridas e cicatrizes da fragilidade humana abrem espaço para a ação do Espírito, o qual, irrompendo na história pessoal e coletiva, nos interpela à novidade de uma constante recriação. Espírito que nos desinstala, “derruba os poderosos de seus tronos”, abala e reduz a escombros toda e qualquer tirania, afinado os instrumentos para inusitadas formas musicais. A melodia da nova criação somente se faz sentir mediante as “dores de parto” de que nos fala o apóstolo Paulo na Carta aos Romanos, capítulo 8. Numa palavra, a conversão dos ruídos em nova melodia pressupõe renúncia aos próprios instintos, projetos e paixões, escuta silenciosa da vontade de Deus, que é a música por excelência do Ser.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Príncipe indiano que salvou 740 crianças.

Em 1942, um navio vagava pelo Mar da Arábia, carregando 740 crianças polonesas órfãs que haviam escapado dos campos soviéticos. Porto após p...