segunda-feira, 30 de abril de 2012

O samba da Copa

Enquanto o governo atribui críticas a "pessimistas", obras para o Mundial de 2014 atrasam, custos sobem e falta a prometida transparência.

O ministro do Esporte, Aldo Rebelo (PC do B), tem utilizado argumentos pitorescos e de conotação patriótica para tranquilizar a opinião pública acerca dos preparativos para a Copa do Mundo de 2014.

Aos que se mostram apreensivos com o andamento das obras, o titular da pasta costuma lembrar que os brasileiros, ao longo da história, já lideraram empreendimentos mais audaciosos e complexos do que um torneio internacional de futebol. As críticas e os temores de um fiasco viriam apenas de pessimistas que consideram o país um "fracasso civilizatório".

Se é evidente que o Brasil já superou desafios maiores do que a Copa do Mundo, esquece-se o ministro de dizer que também já deixou de cumprir objetivos menores.

Para ficar no campo dos esportes -em que o PC do B de Rebelo se especializou, graças ao loteamento político nos governos do PT-, basta citar os Jogos Pan-Americanos de 2007, contraexemplo do que se espera para a Copa e a Olimpíada de 2016.

Verdadeira maratona de desperdício de recursos públicos, os custos do Pan saltaram de R$ 410 milhões, estimados em 2002, para R$ 3,7 bilhões. Instalações foram abandonadas, e o legado social e urbanístico foi quase nenhum.

Rebelo também adentra o terreno da ciência social para acusar os céticos de desconhecer traços da cultura nacional. "Não temos a cultura do atraso", declarou ao programa "TV Folha" (veiculado pela TV Cultura). Temos é a "impressão de que estamos atrasados". No final, "as coisas sempre saem com pontualidade e precisão".

O exemplo típico seria, para o ministro, o galpão de escola de samba. Se alguém o visita nos dias que antecedem ao desfile, diz ele, pode ficar com a impressão de que não vai sair. O Carnaval, no entanto, sempre acontece.

Infelizmente, o palavrório oficial não corresponde à realidade. Se o país ainda tem condições de evitar um vexame, não há dúvida de que as providências seguem em ritmo muito aquém do desejável.

Os custos variam vertiginosamente; há indícios de superfaturamento; parte das obras está irremediavelmente atrasada. Especialistas já dão como certo que estádios importantes, como os do Rio, de Salvador e de Recife, não estarão prontos para receber a Copa das Confederações, evento de teste que acontecerá em 2013.

Tais percalços, contudo, não bastam, ao menos por ora, para embasar um veredito drástico contra a realização do Mundial. Estudos de instituições respeitadas indicam uma série de vantagens em hospedar o evento, algumas mensuráveis, outras menos tangíveis.

Segundo levantamento a cargo da Fundação Getulio Vargas e da agência publicitária Ernst & Young, a economia brasileira poderá quintuplicar, como ganhos, os investimentos na Copa. Em 2009, o relatório estimava acréscimo de cerca de 2% do PIB (2010), distribuídos entre os anos de 2010 a 2014.

Entre os efeitos benéficos, temporários e permanentes, são citados incremento do emprego, aumento da arrecadação, elevação do fluxo de visitantes e melhorias nas cidades-sede. Reflexos positivos favoreceriam setores como construção civil, alimentos, bebidas, turismo e hotelaria.

Além disso, o país estará no centro das atenções da imprensa internacional durante semanas. O destaque poderá proporcionar ganhos e oportunidades em diversas áreas.

Para que tudo isso ocorra, é preciso que as instâncias envolvidas atuem com eficiência e cumpram o planejado. Lamentavelmente, não tem sido essa a tônica, tanto no que se refere às organizações esportivas quanto ao setor público.

A recente renúncia do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Ricardo Teixeira, explicitou mais uma vez aspectos obscuros do mundo futebolístico. As sombras projetam-se, aliás, sobre o Comitê Organizador Local (COL), que dá sinais de amadorismo, se não de incompetência, na realização de suas tarefas.

Quanto à esfera governamental, os problemas datam da época do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele perdeu a chance de passar a limpo a organização do futebol brasileiro e negociar com a Fifa condições mais razoáveis para a realização do evento.

O presidente-torcedor aliou-se à cúpula da CBF e submeteu-se às exigências faraônicas da entidade máxima do futebol. Arenas como as de Cuiabá e Manaus já nasceram com vocação para elefantes brancos -o que o tempo confirmará.

Governo federal, Estados e municípios, além dos atrasos na infraestrutura, têm falhado na promessa de transparência quanto às despesas. Estudos e portais oficiais não conseguem chegar a um acordo sobre o que é e o que não é custo da Copa. Fornecem dados contraditórios e defasados, tornando impossível até aqui saber ao certo quanto custará o evento -alguma cifra, provavelmente, entre R$ 26 bilhões e R$ 33 bilhões.