Carlos Lamarca nasceu em 1937 no Estácio, no Rio, filho de um sapateiro. Formado nas Agulhas Negras, era atirador de elite. Pouco antes de desertar, foi escalado pelo Exército para ensinar bancárias a reagir a assaltos.
Ele foi promovido a capitão do Exército durante a ditadura, em 1967, três anos depois do golpe de 1964.
O Exército o escalou para dar treinamento de tiro a bancárias do Bradesco, para que soubessem reagir a assaltos de grupos armados. As fotos desse treinamento saíram nas revistas da época.
Semanas depois, ele mesmo estava assaltando bancos para conseguir o dinheiro que grupos da luta armada precisavam. A VPR, como a ALN e outros grupos da época, chamava os assaltos de “expropriações” e os usava para financiar a guerrilha.
Em 24 de janeiro de 1969, aos 31 anos, fugiu do quartel de Quitaúna, em Osasco (SP), numa Kombi com um sargento, um cabo e um soldado, levando 63 fuzis FAL, três metralhadoras e munição.
Antes, mandou a mulher, Maria Pavan, e os dois filhos para Cuba. O Superior Tribunal Militar o considerou traidor.
Na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), virou comandante, e o rastro de mortes começou rápido.
Em 9 de maio de 1969, participou do assalto simultâneo a dois bancos no Brás, em São Paulo. Na saída, o guarda civil Orlando Pinto Saraiva tentou impedir a fuga e foi morto por Lamarca com dois tiros.
Meses depois, ele fez uma cirurgia plástica para mudar o rosto e seguiu na clandestinidade.
Em 1970, montou um campo de treinamento de guerrilha no Vale do Ribeira (SP). Cercado por cerca de 2.500 militares, o grupo rendeu uma tropa da PM e levou como refém o tenente Alberto Mendes Júnior, de 23 anos.
Para não denunciar a posição com um disparo, o jovem oficial foi morto a coronhadas de fuzil por ordem de Lamarca.
Em 7 de dezembro de 1970, Lamarca comandou o sequestro do embaixador suíço Giovanni Bucher, no Flamengo, Rio.
O agente da Polícia Federal Hélio Carvalho de Araújo, responsável pela segurança do diplomata, foi baleado por Lamarca e morreu em decorrência dos ferimentos.
Bucher ficou 40 dias em cativeiro e foi trocado por 70 presos políticos, enviados ao Chile.
Com a morte de Carlos Marighella, Lamarca virou o inimigo número 1 do regime. Em 1971, já no MR-8, fugiu para o sertão da Bahia com a companheira, Iara Iavelberg, que morreu em Salvador em agosto.
A Operação Pajuçara, comandada pelo major Nilton Cerqueira, reuniu 215 agentes. Lamarca e José Campos Barreto, o Zequinha, caminharam cerca de 300 km pela caatinga.
Em 17 de setembro de 1971, no povoado de Pintada, em Ipupiara, os dois foram encontrados descansando sob uma árvore.
Aos 33 anos, desnutrido e esgotado, Lamarca não ofereceu resistência e levou sete tiros, inclusive pelas costas. A versão oficial de tiroteio foi depois considerada falsa.
Dias depois, a censura ordenou: “qualquer publicação sobre Carlos Lamarca fica encerrada”. Em 1996, a Comissão de Mortos e Desaparecidos reconheceu que ele estava sob controle dos agentes e deveria ter sido preso, não executado.
Em 2007, a Comissão de Anistia o promoveu a coronel e garantiu indenização à família. O Clube Militar foi à Justiça alegando que um desertor não poderia ser premiado, e em 2015 a Justiça Federal anulou a promoção e as indenizações.
Para muitos militares, o Estado premiou um desertor responsável pela morte de três agentes da lei; para seus defensores, reparou uma execução.
Fonte: Casos criminais.

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