
Cláudio Guerra: "Isso me atormentou muito"
Após décadas de silêncio, o ex-comandante do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) Claudio Guerra revelou o destino de corpos de desaparecidos políticos do período militar: incinerados numa usina de cana em Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro, na década de 1970 e início dos anos 1980.
"Isso me atormentou durante muito tempo porque eu sei que as famílias devem ainda ter até hoje aquela esperança de saber o destino de seus entes queridos. Se eu tive coragem de fazer, eu tenho que ter coragem de assumir os meus erros", disse ele, em vídeo para a divulgação do livro "Memórias de uma Guerra Suja".
A obra, de autoria dos jornalistas Marcelo Netto e Rogério Medeiros, traz depoimentos de Guerra sobre os crimes praticados durante a Ditadura Militar. Crimes dos quais ele se diz arrependido.
O ex-delegado, segundo consta no livro, usou a usina do ex-vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro Gomes. Teriam sido incinerados: João Batista, Joaquim Pires Cerveira, Ana Rosa Kucinski, Wilson Silva, David Capistrano, João Massena Mello, José Roman, Luiz Ignácio Maranhão Filho, Fernando Augusto Santa Cruz Oliveira e Eduardo Collier Filho. O Tenente Odilon também está na lista.
Evangélico
Contra Guerra, agora evangélico, pesam hoje acusações de formação de quadrilha, roubo de armas, tráfico de drogas, tortura e homicídios, incluindo o de sua própria mulher. Foi acusado ainda de chefiar grupos de extermínio. Condenado a 42 anos de prisão, ficou preso por 10 anos. Hoje cumpre atividades sociais como pena. Ele também foi intimado, este ano, para prestar depoimento sobre desvio de recursos do dízimo da Assembleia de Deus de Serra-Sede, onde seria tesoureiro.
Na série de entrevistas que deu para o livro, Guerra informou sobre sua "missão de matar", falou sobre o atentado que comandou à redação do jornal Estado de São Paulo – para mostrar insatisfação com o processo de abertura política – e detalhou como desaparecia com corpos de militantes de esquerda.
Ele conta ainda que o delegado Sérgio Paranhos Fleury – símbolo da linha-dura do regime – teria sido assassinado por ordem dos próprios militares, como queima de arquivo.
Após visita há duas semanas à Usina, se lembrou de mais um corpo levado para lá, de Teixeira Frutuoso, para incineração.
"Ele estava bem machucado e, como era comum perceber nos outros corpos, estava sem unhas, já que utilizavam uma prática chinesa de tortura, enfiando estiletes debaixo das unhas. Seu rosto estava machucado, o tórax estava machucado, dando impressão de ter levado chutes de coturnos ao olhar as roupas. O comentário quando peguei o corpo é o de que teve uma parada cardíaca por causa de um choque elétrico e não voltou da parada cardíaca".
"Memórias de uma Guerra Suja" deve chegar hoje às livrarias.
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