NEM TODOS MORREM - Por Odenildo Sena.


O que a gente costuma chamar de coincidência sempre mexe um pouco com minhas crenças e descrenças nas coisas desse velho e misterioso mundo. Acabo de viver um desses episódios.

Minha Mãe e heroína maior partiu em 1995, aos 89 anos, afetada pelo avançado estado da doença de Parkinson. À época, eu estava na Paulicéia Desvairada dando conta das pesquisas e da escrita de minha tese de doutoramento na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC). Contando com o tempo do mestrado, concluído em dezembro de 1987, posso dizer com orgulho que fui filho da PUC por sete anos, sempre como bolsista da velha Capes.

Lembro-me daquele sábado, no início da tarde, quando o telefone tocou, o filho mais velho que estava comigo atendeu e disse que era de Manaus. Fui arremessado contra a parede com a notícia de que Mãe acabara de dar seu derradeiro suspiro. Fazia uma semana que eu tinha ouvido sua voz pela última vez. Era hábito meu ligar para ela sempre aos domingos. E eu me lembro de que o mote para iniciarmos era sempre o mesmo: “Como você está, minha velhinha?”

A princípio, mergulhei numa profunda tristeza que logo se misturou a um conflito interior que demorei algum tempo para dele emergir com uma decisão. Não, eu não iria correr para o aeroporto na tentativa de chegar a tempo para o enterro de Mãe. Me recusava a ver minha velhinha inerte recolhida à morbidez de um caixão. Porque aquela, para mim, não seria ela. De jeito nenhum.

E não era por entrar em negação. Era pela necessidade que eu sentia de querer guardar comigo o que ela fora, não o que ela tinha passado a ser depois do telefonema. E assim o fiz. Tanto que, tendo voltado para Manaus, depois da defesa da tese, nunca me permiti visitar seu túmulo no cemitério, lugar que considero o espaço mais impróprio para reverenciar os que partiram.

Quanto à coincidência a que me referi na abertura deste texto e que me embalou sem escala na direção do episódio da partida de Mãe, deu-se hoje com a leitura de uma crônica de Clarice Lispector escrita em 1968. Para falar da perda de San Tiago Dantas, amigo seu muito querido, Clarice inicia o texto afirmando que “Não, nem todo o tipo de lucidez é frieza”. E termina justificando o porquê. Decidira não ir ao enterro do amigo, “porque nem todos morrem”.

Me fez tão bem ao coração esse encontro casual com Clarice! Chego a viajar no mistério de que em 1968 ela tenha escrito aquela crônica para mim, para eu ler somente em 2026 e para me fazer voltar ao ano de 1995. Me confirmou a certeza de que aquela decisão, lá atrás, tinha sido fruto da lucidez, nunca da minha frieza. Afinal, Mãe não tinha morrido, como não morreu até hoje. Só deixará esse mundo quando partirmos. Juntos.

LIVROS MAIS RECENTES DO AUTOR:
  1. Memórias de menino. Manaus: Editora Valer, 2025.
  2. O último biribá - Contos & crônicas para embalar esperanças. Manaus: Editora Valer, 2023.
  3. A felicidade precisa de loucura - Uma sinfonia do meu tempo em 115 crônicas escolhidas. Manaus: Editora Valer, 2022.
  4. Aprendiz de escritor - Sobre livros, leituras & escritos. Manaus: Editora Valer, 2020.
  5. No tempo de eu menino. Manaus: Editora Valer, 2015.
  6. Palavra, poder e ensino da língua, 3a. edição. Manaus: Editora Valer, 2019.
  7. A engenharia do texto - Um caminho rumo à prática da boa redação, 4a. edição. Manaus: Editora Valer, 2011.

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