A resposta não cabe em slogans. Ela atravessa quartéis, corredores abafados de repressão, selvas úmidas no interior paulista e o chão seco do sertão baiano. Ela passa pela disciplina militar, pela leitura política, pelo choque moral e pela convicção de que, sob uma ditadura, neutralidade se torna cumplicidade.
A história de Carlos Lamarca começa dentro da instituição que, anos depois, o transformaria em seu inimigo mais caçado.
Nascido no Rio de Janeiro, Lamarca seguiu a carreira militar com desempenho destacado. Era considerado um dos melhores atiradores de sua geração. Em 1962, integrou a missão de paz da ONU em Gaza. Ali, o contato direto com populações submetidas à pobreza extrema ampliou sua percepção sobre desigualdade e geopolítica. O mundo deixava de ser um mapa estratégico e se tornava um campo concreto de disputas por poder e sobrevivência.
Em 1969, já era capitão do 4º Regimento de Infantaria, em Quitaúna, Osasco. Instrutor de tiro, disciplinado, respeitado. Um quadro promissor.
O golpe de 31 de março de 1964 alterou o eixo da sua trajetória. Dentro das Forças Armadas havia oficiais e praças que defendiam o legalismo constitucional. O novo regime iniciou uma ampla depuração interna. Estima-se que mais de 6.500 militares foram punidos, reformados compulsoriamente ou expulsos por razões políticas. Sargentos, cabos e marinheiros figuravam entre os mais atingidos. A repressão atravessava as próprias fileiras.
O Ato Institucional nº 5, em 1968, consolidou o fechamento do sistema político. Prisões arbitrárias, suspensão de garantias constitucionais e institucionalização da tortura tornaram-se instrumentos de Estado. Lamarca, como oficial, tomou conhecimento direto desses métodos. O conflito deixou de ser apenas institucional e passou a ser moral.
Em janeiro de 1969, Lamarca executou uma ação que marcou sua transição definitiva. Organizou a retirada de 63 fuzis FAL e munições do quartel de Quitaúna e desertou. Não se tratou de um impulso. Ele já havia providenciado a saída da esposa, Maria Pavan, e dos filhos para Cuba, evitando que fossem usados como instrumento de pressão.
A deserção foi um ato estratégico e simbólico. Um capitão formado pelo Estado utilizava seu treinamento contra a própria engrenagem repressiva. Lamarca assumiu papel central na Vanguarda Popular Revolucionária e, posteriormente, no MR-8. Tornou-se o principal estrategista militar da oposição armada.
No Vale do Ribeira, em 1970, montou um núcleo de treinamento de guerrilha. O Exército mobilizou cerca de 2.500 homens, helicópteros e aviões para cercar um grupo de 17 militantes. Lamarca rompeu o cerco e conduziu seus homens pela mata fechada até a fuga completa. O episódio repercutiu profundamente na cúpula militar. A partir dali, sua captura tornou-se prioridade absoluta.
A radicalização consolidava-se como resposta direta ao fechamento das vias institucionais e ao emprego sistemático da tortura. Para Lamarca, a luta armada representava a única estratégia capaz de enfrentar um regime que operava com aparato militar total.
A vida na clandestinidade exigia disciplina permanente. Disfarces constantes, codinomes, deslocamentos entre “aparelhos” e comunicação fragmentada. A perseguição era conduzida por órgãos como DOI-CODI e SNI. A cada prisão sob tortura, aumentava o risco de rastreamento.
Sua relação com a psicóloga Iara Iavelberg inseriu dimensão afetiva em meio à guerra política. Iara teve papel intelectual ativo dentro dos movimentos. Em setembro de 1971, foi morta em Salvador durante ação de forças de segurança. Investigações posteriores demonstraram que não houve suicídio, como sustentou a versão oficial por décadas. A morte de Iara intensificou o isolamento de Lamarca.
Debilitado fisicamente e deslocado para o interior da Bahia, ele passou a depender de redes cada vez mais frágeis de apoio.
A caçada final recebeu o nome de Operação Pajussara. Coordenada pelo major Nilton Cerqueira, mobilizou aparato significativo de inteligência e tropas na região de Pintada, sertão baiano.
Em 17 de setembro de 1971, Lamarca e o militante Zequinha Barreto foram localizados. Ele estava exausto, com problemas gástricos crônicos e em repouso sob uma árvore quando foi surpreendido. Cercado e sem condições efetivas de defesa, foi morto a tiros. Zequinha também foi executado.
A operação tinha objetivo político claro: eliminar o símbolo mais visível da resistência armada oriunda do próprio Exército. A morte de Lamarca foi divulgada como neutralização de um desertor perigoso. Internamente, significou a eliminação de um dissidente que conhecia profundamente a estrutura militar.
Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade dedicou volume específico às violações de direitos humanos sofridas por militares que resistiram ao regime. O reconhecimento institucional consolidou o entendimento de que a repressão atravessou também as próprias Forças Armadas.
Em 2007, a Comissão de Anistia concedeu a Lamarca a promoção post-mortem a coronel, com indenização à família. A decisão gerou intensa disputa judicial que percorreu tribunais superiores. A batalha jurídica tornou-se extensão simbólica do conflito travado décadas antes.
Lamarca permanece figura de tensão na memória nacional. Sua trajetória apresenta um arco fechado: oficial disciplinado, ruptura ética diante do autoritarismo, liderança armada, perseguição sistemática, execução e disputa posterior por reconhecimento histórico.
A história não simplifica suas escolhas. Ela as registra. E ao registrá-las, expõe a dimensão extrema a que um país chega quando transforma divergência em crime e transforma dissidência em alvo militar.
A trajetória de Lamarca ilumina esse ponto exato da história brasileira: quando a estrutura que deveria proteger a Constituição passou a combatê-la, alguns decidiram permanecer dentro da engrenagem. Outros escolheram enfrentá-la. Ele escolheu enfrentar.
Por: Fagner Oliveira

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