No fim da tarde de 28 de março de 1968, centenas de estudantes se reuniam no Calabouço, um restaurante popular no centro do Rio de Janeiro. Ali comiam alunos pobres, principalmente secundaristas, que são os estudantes do antigo segundo grau, e vestibulandos. A comida era barata, mas ruim, e o lugar era sujo e sem condições adequadas.
Por isso os estudantes organizavam passeatas com frequência para protestar, e foi o que aconteceu naquele dia. Dessa vez, porém, viaturas da polícia cercaram o local de surpresa. Os estudantes reagiram jogando pedras, e a Polícia Militar respondeu com rajadas de metralhadora.
Seis pessoas ficaram feridas. Uma delas foi atingida no peito e não resistiu: Edson Luís de Lima Souto, de apenas 18 anos. Segundo os relatos da época, o tiro partiu do comandante da tropa, o aspirante da PM Aloísio Raposo.
Edson era um menino pobre de Belém, no Pará, que tinha se mudado para o Rio com o sonho de terminar os estudos.
Ele fazia faxina no Calabouço em troca da comida e nem era ligado a movimentos políticos.
Naquele dia, ele estava ali jantando, como em qualquer outro, quando foi surpreendido pelo tiro.
O Brasil vivia a ditadura militar, período iniciado em 1964 em que o país foi governado por generais, sem eleições livres para presidente e com forte repressão a quem protestava.
Com medo de que a polícia sumisse com o corpo, os colegas carregaram Edson até a Assembleia Legislativa, onde 55 deputados estavam reunidos em sessão.
A sessão foi interrompida, e o corpo do estudante ficou estendido no saguão do prédio, à vista de todos. Assim ninguém poderia negar o que a polícia tinha feito.
Os estudantes decretaram greve geral, os teatros cancelaram seus espetáculos e centenas de pessoas passaram a noite no velório.
Na manhã seguinte, os jornais do Rio estampavam na primeira página a palavra "Assassinato". O país se perguntava como um estudante inocente, que não era militante, tinha sido morto daquela forma.
Às 16h, mais de 50 mil pessoas acompanharam o cortejo até o cemitério São João Batista, em Botafogo. O caixão, coberto com a bandeira do Brasil, foi carregado por estudantes, deputados e artistas, enquanto a multidão cantava o Hino Nacional e moradores jogavam rosas do alto dos prédios.
Nos cartazes se lia "Os velhos no poder, os jovens no caixão", "Bala mata fome?" e a frase que virou símbolo do caso: "Mataram um estudante. Podia ser seu filho".
Uma semana depois, na missa de sétimo dia na Igreja da Candelária, a cavalaria da polícia cercou e atacou as pessoas que saíam da igreja.
Os protestos se espalharam pelo país e, em junho, levaram à Passeata dos Cem Mil, a maior manifestação contra a ditadura até então.
A resposta do governo veio em 13 de dezembro de 1968, com o AI-5, o Ato Institucional número 5, um decreto que deu poderes quase totais aos militares. Com ele, o governo podia fechar o Congresso, cassar políticos e prender pessoas sem direito de defesa, e começava ali a fase mais dura do regime.
O Calabouço foi fechado, e ninguém foi punido pela morte de Edson. Por décadas, o caso ficou sem reconhecimento oficial.
Em 2025, a Assembleia Legislativa do Rio aprovou a inclusão do nome de Edson Luís no Livro dos Heróis e Heroínas do Estado.
A atualização mais recente veio em 30 de junho de 2026, quando o governo federal entregou à família a certidão de óbito retificada, numa cerimônia no Rio de Janeiro.
Retificar a certidão é corrigir o documento oficial que registra a morte.
Agora ele afirma que Edson morreu de forma violenta, causada pelo próprio Estado brasileiro durante a ditadura. Mais de 58 anos depois, o país reconheceu oficialmente que aquele tiro no Calabouço foi um crime do regime.
Fonte: Crimes e mistérios.

Nenhum comentário:
Postar um comentário