Em 3 de dezembro de 1972, Miriam Leitão tinha 19 anos, estava grávida do primeiro filho e saía para ir à Praia do Canto, em Vitória, com seu companheiro, Marcelo Netto.
Caminhavam pela Rua Sete quando alguém chamou Marcelo. Ao se virarem, viram dois homens armados correndo em sua direção. Outros apareceram e rapidamente cercaram o casal. Eles foram algemados e Marcelo foi empurrado para uma camionete Veraneio sem identificação. Miriam sentou-se na calçada e começou a gritar, tentando chamar a atenção de quem passava. Era manhã de domingo e havia pouca gente na rua. Ela relataria posteriormente que acreditava que, quanto mais pessoas presenciassem a captura, maiores seriam suas chances de sair viva. Os agentes então a agarraram e a colocaram no veículo.
Décadas depois, outra parte daquela história seria reconstruída pelo filho de Miriam, o jornalista Matheus Leitão. Ele localizou Foedes dos Santos, companheiro de militância dos pais no PCdoB, apontado nos documentos pesquisados como responsável pela delação que levou a repressão até integrantes do grupo. Foedes admitiu ter fornecido nomes, mas afirmou que também havia sido preso e que não suportou a tortura. Matheus relatou ter encontrado não a figura simples de um “traidor”, mas um homem que reconheceu o que havia feito e disse ter cedido diante da violência que também sofrera.
Miriam e Marcelo foram levados ao 38º Batalhão de Infantaria do Exército, em Vila Velha, e separados. Miriam relatou que foi obrigada a retirar toda a roupa diante de 13 homens — dez soldados e três homens à paisana. Grávida, permaneceu nua enquanto sofria humilhações e ameaças de estupro. A jovem que naquela manhã havia colocado uma camisa larga sobre o biquíni para ir à praia terminou dentro de uma instalação militar, separada do companheiro e submetida à violência da repressão. Era apenas o início do período de prisão que ela posteriormente relataria publicamente.
Fonte: Conhecimento reverso.

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