quarta-feira, 15 de maio de 2013

Comissão da Verdade precisa analisar papel da mídia no golpe




No momento em que a Comissão Nacional da Verdade completa um ano de funcionamento e anuncia que vai convocar para depor e prestar esclarecimentos empresários que contribuíram para a montagem e sustentaram financeiramente o aparelho de repressão da ditadura civil-militar (primeiro a Operação Bandeirante-OBAN, depois os DOI-CODIS), a Comissão precisa analisar, também, o papel da mídia na preparação, deflagração e sustentação por um bom tempo do golpe militar de 1964.

O anúncio de que empresários que contribuíram com a ditadura serão convocados a depor foi feito pelos conselheiros Rosa Cardoso e Paulo Sérgio Pinheiro, 2ª feira desta semana, em ato de balanço do primeiro ano de funcionamento da Comissão. Amanhã Pinheiro transmite a coordenação da Comissão a Rosa, que a dirigirá no sistema rotativo pelos próximos três meses.

Convocar e ouvir empresários... Mas e a imprensa, que fomentou, incentivou e apoiou o golpe desde a 1ª hora e até mesmo antes de sua deflagração?

Não se propõe que a imprensa seja julgada

Nem venham, de novo, com história de que se quer censura ou que a proposta atinge a liberdade de imprensa. Nada disso. O que se propõe é que a Comissão da Verdade faça um estudo sobre o comportamento da mídia naquele período, sua contribuição engajada - principalmente com editoriais - na campanha pela deposição do presidente constitucional, João Goulart, o Jango, e seu apoio aos primeiros anos do golpe.

Naqueles tempos, primeiros anos da ditadura, quem na mídia ficou contra o golpe - caso do jornal Correio da Manhã e de algumas poucas emissoras de TV e de rádio que pertenciam a adversários da nova ordem - foi sufocado até fechar. Caso exemplar é o da Última Hora, de Samuel Wainer, que não apoiou o golpe e aos poucos foi sufocada e liquidada sem que nenhum órgão de imprensa protestasse.

Uma reconstituição dessa natureza do comportamento da imprensa naquele período restabelecerá a verdade e registrará para a história o que os brasileiros têm o direito e precisam saber sobre a mídia antes e depois do golpe civil-militar de 1964.