O ÍNDIO DO BURACO NÃO ESTAVA SOZINHO?


A reportagem da jornalista Jullie Pereira, publicada pela InfoAmazônia e reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU), traz uma revelação capaz de reescrever um dos capítulos mais dolorosos da história indígena brasileira. O homem que o país conheceu como “Índio do Buraco”, apontado durante anos como o último sobrevivente do povo Tanaru, talvez não tenha sido o derradeiro representante de sua etnia.

Durante décadas, a história pareceu encerrada. O indígena isolado de Rondônia transformou-se em símbolo de resistência e também em testemunha silenciosa de um genocídio. Quando morreu, em 2022, muitos acreditaram que os Tanaru haviam desaparecido para sempre. Era o fim oficial de um povo.

Mas a floresta amazônica tem o hábito de guardar segredos que desafiam as certezas dos gabinetes.

Segundo a investigação conduzida por indigenistas do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), a família de Mercedes Guaratira pode ser descendente direta dos Tanaru. Mercedes, falecida em 2015, passou a vida afirmando aos filhos que havia nascido às margens do rio Tanaru e que sua gente foi obrigada a fugir de massacres, doenças e perseguições promovidas durante o avanço da ocupação da região.

Se confirmada, a descoberta derruba uma das narrativas mais repetidas dos últimos anos. O povo considerado extinto continuaria vivo na memória, nos descendentes e nas histórias transmitidas de geração em geração. A morte do “Índio do Buraco” deixaria de representar o ponto final de uma etnia para se tornar apenas uma vírgula numa história muito maior.

Há uma ironia profunda nisso tudo. O Brasil sempre foi eficiente para registrar desaparecimentos indígenas. Muito menos eficiente para reconhecer sobrevivências. Enquanto documentos decretavam o fim dos Tanaru, uma mulher contava aos filhos, dentro de casa, que pertencia exatamente ao povo que os registros oficiais julgavam desaparecido.

Talvez o maior buraco dessa história não seja aquele cavado pelo indígena solitário nas matas de Rondônia. Talvez seja o vazio deixado por décadas de negligência, silêncio e incapacidade de ouvir aqueles que carregavam a memória viva de seu próprio povo.

E se os Tanaru sobreviveram, ainda que fragmentados pelo tempo e pela violência, a história brasileira terá de admitir algo desconfortável: os povos indígenas resistem muito mais do que as versões oficiais costumam reconhecer.

Fonte: Reportagem de Jullie Pereira, publicada pela InfoAmazônia em 18 de setembro de 2025 e reproduzida pelo Instituto Humanitas Unisinos (IHU).
Por: João Guató

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