João Pereira dos Santos nasceu pobre em Serra Talhada, no sertão de Pernambuco, em 1907. Perdeu tudo ainda bebê, quando a família foi expulsa da própria terra. Começou a trabalhar cedo, abrindo porteiras para um industrial da região. Anos depois, virou contador. Depois, economista. Aos poucos, empresário do açúcar.
Em 1951, deu o passo que mudaria sua história. Construiu uma fábrica de cimento em cima do próprio calcário, em Goiana, Pernambuco. Nascia a Nassau. A empresa cresceu rápido. Nos anos 1970, forneceu cimento para uma das maiores obras da América do Sul: A Usina de Itaipu.
Esse contrato colocou a Nassau entre as maiores cimenteiras do Nordeste. João Santos comandou tudo sozinho por mais de cinco décadas. Não dava entrevista. Não aparecia em fotos. Quase ninguém conhecia seu rosto. Mesmo assim, seguiu no comando até os 101 anos.
O grupo chegou a ter mais de 40 empresas. Faturamento de R$ 3 bilhões por ano. Milhares de funcionários espalhados pelo país. Só que havia um problema. João nunca estruturou um plano de sucessão. Pouco antes de morrer, criou uma regra que travava qualquer mudança de comando.
Para tirar seus filhos Fernando e José da liderança, seria necessário reunir 75% das ações. O resto da família, mesmo unida, não passava de 68%. Na prática, ninguém conseguia mudar nada. Em 2009, o patriarca morreu. E a paz que existia enquanto ele vivia foi embora com ele. Os herdeiros entraram em disputa. De um lado, os filhos que assumiram o comando. Do outro, irmãos e netos que questionavam a gestão. A crise piorou com o cenário econômico.
Em 2014, o Brasil entrou em recessão. O setor de cimento, que vivia seu maior boom, desabou. Enquanto concorrentes investiam e abriam fábricas, o Grupo João Santos ficou parado, travado pela briga interna. Nove das 11 fábricas da Nassau fecharam. Salários atrasaram. A situação piorou ano após ano. Vieram denúncias de lavagem de dinheiro. Investigação da Polícia Federal.
Acusações públicas entre parentes, expostas até em redes sociais. O que sobrou de um dos maiores impérios industriais do Nordeste segue hoje disputado nos tribunais.
A lição por trás da história é simples.
Fonte: ISTOÉ Dinheiro.